domingo, 13 de novembro de 2011

A BONDADE E O BELO PLAUSÍVEIS: BENDICÊNCIAS / BENFAZÊNCIAS PLAUSÍVEIS


Há meses ‘embatuquei’ neste texto, cujo objetivo era ser uma espécie de ‘presente’ para algumas pessoas que se deram ao trabalho de me fazer o melhor bem possível, em algum momento: coisa (surpreendentemente?) rara, que a gente deveria agradecer, aplaudir, alardear para o Mundo todos os dias, a cada manifestação mínima.


Vejo escrever sobre isso como uma possibilidade de mostrar a plausibilidade dessas opções: a ‘BENDICÊNCIA’ e a ‘BENFAZÊNCIA’, exemplificando-as e documentando-as com concretude.


O problema é que ‘embatuquei’, e me perguntava todos os dias, diante do teclado, o ‘por quê’ disso, já que desejava apenas (?) falar de coisas reais, que tinham me acontecido.

Tentei – inclusive – o refúgio na prévia sinestesia do papel-e-caneta; durante esses (aproximadamente) noventa dias, nada adiantava: o texto não saía.


Acontecimentos paralelos me chamavam particularmente a atenção há algum tempo, especialmente após a ‘explosão’ das redes sociais: a oposta facilidade com que se fala mal dos outros, e a raridade de ver alguém falando bem de alguém (não por mera ‘tietagem’ imediatista, mas por admiração ou reconhecimento consistentes do talento ou qualidade de gesto legítimos e auto-evidentes do Outro).

Ah, o Outro, esta ‘entidade’ sempre ‘difícil de engolir’ para ‘o um’.


Estar na mira planetária de cometas errantes (mal-humorados?) poderia ser o suficiente para priorizarmos o acolhimento e a empatia ao semelhante, mas... não é o que acontece!

Somos humanos, e ainda ridículos e limitados; sabemos disso... Sabemos?...


Acabei de passar por uma situação típica do território da ‘Rede’.

Um rapaz bem jovenzinho, mas reflexivo, aparentemente inteligente (com senso crítico desperto, talvez), bastante informado para a idade dele, por um mero mal-entendido que logo depois foi esclarecido, me deu um ‘pito’ sobre um assunto, dizendo ‘... que eu precisaria ler ao invés de ver televisão...’; depois de tudo esclarecido, ele pediu desculpas.

Até ali nós nunca tínhamos nos visto nem nos escrito nem mais gordos nem mais magros, e um não tinha a menor idéia de quem era o interlocutor ‘de verdade’ atrás das teclas.

Ao invés de sair espinafrando-o, chamando-o de fedelho ou às falas, acolhi o que ele havia dito, mostrando por outro lado o quanto ele estava apenas ‘enganado de pessoa’.

Era a única saída para mostrar, inclusive, que havia busca de maturidade ao menos atrás das minhas teclas, e que eu acreditava que ele também seria capaz de se organizar ao redor da maturidade que lhe fosse possível.

Porque eu deveria partir do princípio que ali havia apenas ignorância ou ignomínia?

O diálogo se instalou; ele está aguardando que eu termine este texto para lê-lo...


Mas nem sempre é o que acontece.

Narcisistas encapsulados, e mesmo psicopatas com defeitinho de fabricação ainda intocado, tecnicamente existem; infelizmente...


Faço inclusive o elogio do humor como plausível instrumento de reflexão e renovação das ações, mas tenho horror de piadas que se limitam a denegrir ou desqualificar quem quer que seja com mera grosseria, ou que ‘param’ no xingamento, e não seguem proporcionando o exercício de aprimoramento do senso crítico para o qual poderiam se destinar.

Assim como tenho horror de qualquer proibição do exercício de errar, inclusive com piadas.

E mais horror tenho ainda de farsas montadas por volúpia de marketing pessoal, que fingem grandes ‘indignações ou ofensas’ onde elas de fato não existiram, não existem.


Que volúpia se esconde de fato atrás da fome de maledicência e/ou malfazência?


A maledicência é frequentemente vista como uma espécie de ‘poder’ real, de ‘inteligência’ real.

‘O-que-fala-mal-de’ não só se sente ‘superior’, como é acolhido/eleito como superior por sua ‘patota’.

Angaria tietes por isso, que aplaudem cada desaforo dirigido por ele a alguém, especialmente se for alguém ‘de fora’ de seu próprio ‘rebanho’...


Será crível que tamanha pequenez de fala/gesto alimente uma volúpia de podre poder visível e óbvia, que estaria, sem grande esforço, ao alcance da consciência?


Aos meus olhos profissionalmente viciados, a volúpia (mais ou menos) oculta se aproxima antes da imagem da boca de bebês vampiros, que ainda não conseguiram crescer, e que crêem firmemente que precisam destruir para devorar o que estiver ao redor (seja o quê/quem for) para se manterem vivos: quanto mais cheio de vida (espontaneidade, brilho próprio, visível autonomia, alegria de viver) o objeto, mais necessário brincar de destruí-lo e supor que o devora com más palavras.


A ‘malfazência’ do dia a dia é mais dissimulada.

Frequentemente se oculta atrás de sorrisos mentirosos, gestos mentirosos, simpatias e relacionamentos mentirosos, como se fossem ‘de plástico’: coloridos, mas vagabundos e poluentes; imortais, mas fraudulentos.


A maledicência e a malfazência do dia a dia são frequentemente vistas como ‘necessárias’ para um ‘sucesso’ das rivalidades elogiadas pelo triunfo da exterioridade, da (cada vez mais aplaudida) mera aparência de seres que vivem como se não tivessem ESPÍRITO – e quando digo Espírito, espero que todos entendam que não me refiro às religiosidades, mas às INTERIORIDADES...


Figuras públicas são ‘vidraças’ expostas nesse jogo fedorento.

‘Falem mal, mas falem de mim’ vai se tornando a cada dia que passa uma ‘brincadeira’ meio burrinha que beira o perigoso.

Aguça o faro de perseguidores de carne e osso que vão além do verbo, cuja patologia varia entre o risível e o letal: ‘malfazências’ no limite da sobrevivência se aproximam dos alvos, nestes casos já não mais dissimuladas.


Felizmente ainda sobrevivem por aí pessoas cônscias dos asteróides que voam tão perto, que ‘têm mais o que fazer’.

Por isso fazem o melhor BEM POSSÍVEL, e dizem o melhor BELO POSSÍVEL.


Tenho sorte.

Tive a honra de vir a conhecer meu irmão Marcio, Amauri Sólon Ribeiro e Sonia Braga, Danillo Sangioy, Marlise Matos, Fabio Porchat, Laerte, Lucila de Beaurepaire,

e mais alguns, que na verdade honram o status de HUMANO, que usamos frequentemente sem grande propriedade, e alguma arrogância.


Todas essas pessoas (e outras que deixo de citar aqui apenas para focar um grupo específico) me deram a mão e mais alguma coisa em momentos difíceis, me tiraram da água quando eu me afogava.


Estado, Mercado, Academia, Templos - logo o Planeta - mais parecem um parquinho cheio de garotões mal educados, sem limites, negligenciados por outras crianças negligenciadas, que só cresceram em seus corpos, e - por isso - concebendo-os, geração após geração, da antiguidade até agora.


Mal-dizer/Mal-fazer é coisa infantilóide, de quem quer poder, sem saber lá muito bem, por mera imaturidade, o que PODER pode de fato significar.


A POTÊNCIA, os DIREITOS, a CRIAÇÃO embutidos em PODER precisam de maturidade para ser enxergados; não são coisa para molecotes; especialmente para molecotes mal-educados/negligenciados.


Tenho a impressão de que eu e meu irmão, Amauri e Sonia, Danillo, Marlise, Fabio, Laerte, Lucila e (FELIZMENTE!) mais alguns, nascemos ‘meio velhinhos’.


Se o fomos, não nos sentimos negligenciados, ou (às custas de lutarmos muito com nós mesmos, por dentro de nós) o superamos...


Não somos ‘melhores’ que ninguém, não somos ‘santos’.

Somos tão tragicamente divididos entre eternas ambivalências quanto todo mundo.

Talvez apenas sejamos especialmente empenhados num exercício duro, ‘puxado’, exaustivo, de fazer as melhores ESCOLHAS possíveis/plausíveis.


Talvez apenas ESCOLHAMOS honrar e aplaudir a vida da Vida, o Outro, a melhor sobrevivência possível/plausível da Humanidade.


Gostamos mais de POTÊNCIA que de aparentes ‘cetros de poderes transitórios e de plástico’; gostamos mais de toda a GENTE que de ‘mateus-primeiro-os-teus'; gostamos mais da VIDA que de fraudá-la em nome de ‘brincar de deus’.


Somos mortais, mas fugimos da fraude... E ainda sabemos rir de todo esse trabalhão que dá esse exercício sempre grávido de responsabilidades!...


Adoraria que este texto fosse muito melhor escrito, muito mais bonito, muito mais claro na gratidão que carrega implícita, mas ‘idealizar’ e empacar em imagens ideais não leva a muita coisa...


Bondade e Beleza ideais não atingiremos.

Mas comprar a briga pelo melhor possível, sempre que possível, é plausível.


IMAGEM: Carta número 14 do Tarô, chamada 'Arte' significando 'Alquimia', ou capacidade de Temperança; esta aqui escolhida, pintada por Frida Harris.

OBS.: Se leu esse texto, vai gostar de

http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1074942&coluna=1

um texto oportuníssimo de Isabel Lustosa.


Um comentário:

aquele do blog disse...

Assim caminha a humanidade em todos os níveis "motor-etários". rs
Acho que essa "velhice" com a qual nascemos, vc, eu, as outras pessoas que citou (aliás me senti um "quem sou eu?" ali no meio rs) e tantas outras que existem, ainda bem, mas que não conhecemos, é uma dádiva, porque é ela que nos permite respeitar. Não só os seres humanos, mas o mundo.
Eu mesmo preciso tomar uma dose dessa velhice, às vezes. Me sinto em tratamento eterno. rs
E trabalhar bastante com adolescentes, como atualmente estou, me fez entender (aceitar) melhor muitas coisas, inclusive da minha adolescência, que permaneceram em mim.
Os jovens, nãos de cabeças jovens, mas sim cruas, precisam se cozinhar um pouquinho.
Ótimo texto, com teor sobre o que eu gostaria de falar um dia, mas não saberia como. rs
E obrigado pela citação não justa sobre mim. Uma HONRA!!! rsrs
BJsssss