terça-feira, 6 de dezembro de 2016


NOSSA QUESTÃO HIPERCOMPLEXA : IDENTIDADE


O fenômeno que chamamos (com falsa intimidade) de IDENTIDADE é um paradoxo.

É o MOVIMENTO de descobertas e escolhas, contínuo e inesgotável, que envolve o desenvolvimento das sementes de nossos mais primitivos vínculos com o Mundo e com o Outro:

-vínculos temporais (um dia, começamos a nos relacionar com o tudo que significa TEMPO);
-vínculos espaciais (um dia, começamos a nos relacionar com tudo que significa ESPAÇO);
-vínculos de GÊNERO (um dia, começamos a nos relacionar com as noções de feminino, de masculino, e todas as suas possíveis combinações e expressões plurais);
- e ainda os vínculos de CIDADANIA (um dia, começamos a nos relacionar com tudo que significa instituição: família, escola, casa, quarteirão, bairro, cidade, festejos, jogos, símbolos, regras, responsabilidades e direitos, etnias, religiosidades, ética e estética, meio ambiente, etc.).

Simultaneamente, é também a nossa “cota sagrada” de IMOBILIDADE: por mais que desenvolvamos saberes, escolhas, e nos transformemos, ALGUMA COISA (quase um mistério) CHAMADA “EU” permanece; a esse quesito chamamos popularmente de “a nossa individualidade”.
Nossa preciosa SINGULARIDADE, único bem que o ladrão não leva, e que o Artista transforma em bem especialmente nobre...

Este PARADOXAL CONJUNTO DE MOVIMENTO E IMOBILIDADE é a nossa IDENTIDADE.

Ela SÓ APARECE QUANDO NOS EXPRESSAMOS, através de nossos pensamentos, nossos sentimentos, nossas ações.
Felizmente NÃO FICA “PRONTA” jamais!

É o que garante que, mesmo que não sejamos Artistas, a criatividade se mantenha (sempre!) em aberto para o próprio indivíduo, e para o grupo social no qual ele esteja inserido.

Ao torná–la foco de nossa atenção consciente, permitimo–nos ampliar suas possibilidades internas ou estruturais, além de melhorarmos a qualidade da visibilidade de sua expressão.

Como pérolas (quem as tem sabe disso), gostam de ser manuseadas e exibidas; senão o são, ficam doentes...

Cabe, neste momento, lembrar a educação de MUITAS de nossas crianças (afinal, as crianças de todo o Mundo são de alguma maneira NOSSAS, nossa responsabilidade).
“ALGO” não se educa; doma-se, usa-se, domina-se ou se adestra.
O “ALGO” de hoje, nos verá como “ALGO”, amanhã...
É ISSO que queremos para elas? Para nós?

Seria por nossa inabilidade que cada vez mais a cultura, a civilização, parecem alimentar sua fome filicida que explora, tortura, usa, viola, arma e mata nossas crianças e jovens, sob nosso silêncio cúmplice?
Na relação entre Sujeitos que se sintam meramente “ALGO”, um vai assumir o papel de “ALGOZ”, levando o Outro a assumir o de “VÍTIMA”.
O “OUTRO”, igualmente, só tem valor de “ALGUÉM” (e não de “ALGO”) para um Sujeito (para um indivíduo ou para um conjunto de atores sociais) que também se sinta “ALGUÉM”.

Na convivência social, a conseqüência da reflexão sobre IDENTIDADE, somada ao exercício de visibilizá-la, pode conquistar e manter o reasseguramento do indivíduo (e/ou grupos humanos) dentro de uma melhor compreensão do VALOR do que é SE perceber, (e perceber o OUTRO), como “ALGUÉM”, e não mais como “ALGO”.

Não só “SUJEITO”, “INDIVÍDUO”, mas também “FAMÍLIA”, “INSTITUIÇÃO”, “COMUNIDADE”, “ESPAÇO PÚBLICO”, “ESTADO”, “MERCADO”, são conceitos que SÓ ESTÃO “VIVOS” QUANDO SE MANTÉM EM CONSTANTE QUESTIONAMENTO, TREPIDAÇÃO, TRANSFORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO.
Assim como nem mesmo “ADULTOS” não são (nem serão) seres que “fiquem prontos”, a “HUMANIDADE”, a CIVILIZAÇÃO também não estão (nem ficarão) “prontas”.
O paradoxo adicional, é que – em nome de sua própria sobrevivência – NÃO DEVEM, NÃO PODEM, “FICAR PRONTOS”!

Para ESTAR VIVAS, pessoas, instituições, e suas expressões subjetivas, relacionais, sociais e institucionais,PRECISAM ESTAR APTAS a transformações, SEMPRE!
Em eterna construção/desconstrução/oficina de reconstrução/moto-perpétuo...

“SOLUÇÕES DEFINITIVAS”?
Repudio quaisquer discursos que se julguem “verdadeiros”.
Sempre que surge um suposto “DISCURSO VERDADEIRO”, surgem, por trás dele o corporativismo, o nazi-fascismo, e/ou os fundamentalismos.
É só abrir os jornais; infelizmente eles continuam por aí...

Afinal, assim como não existem “identidades prontas ou finalizadas”, pois estas estariam mortas, o mesmo vale para o Pensamento e para suas conseqüentes Ações, com alguma sorte balizados pela Responsabilidade.
Exercícios de ensaio, erro, acerto, tentativas: é o que basta; são/estão vivos, caminhando, dialogando, e deixando o Outro viver.


IMAGEM, mais um recente flagrante sorrindo, para fazer jus ao que repito com frequência: Rir e Pensar não são incompatíveis.


domingo, 13 de novembro de 2016



Evento Problematizador das Masculinidades, 2ª Edição, 19 NOV 16
CAMPANHA HOMENS LIBERTEM-SE/MenGetFree e Secretaria da Sáude dos Homens MS
Próximo sábado, no CALIEL, Salgueiro/Tijuca - Rio de Janeiro RJ

Em 2016 a Campanha Homens Libertem-se/MenGetFree, criada por Maíra Lana, caracterizada especialmente por atividades  teatrais Performáticas, e tornada internacional pelo apoio de Judith Malina do famoso Grupo de Teatro Living Theater, foi convidada pela Secretaria da Saúde do Homem do Ministério da Saúde a desenvolver mais um evento no Dia internacional dos Homens.



Assim surgiu o Evento Problematizador das Masculinidades 2ª Edição, que terá como tema principal  "Saúde Mental e Suicídio Masculino", levando em consideração que a população masculina lidera as estatísticas em manicômios e em especial em estatísticas de suicídio no Brasil (e no mundo)...

Para debater com o público temas pontuais e transversais à saúde mental e - na sua ponta extrema - o suicídio foram convidados artistas, profissionais de saúde, acadêmicos e gestores públicos que provocarão com o público a reflexão e o debate sobre o tema.



A produção do evento foi agilizada pelo corajoso Renato Lima de Oliveira, um dos mais ativos colaboradores da Campanha.



Programação:



PERÍODO DA MANHÃ



RODA DE CONVERSA

10h-13h

Saúde Mental e Suicídio Masculino:

- Christina Montenegro (Psicóloga, autora do livro "HOMEM AINDA NÃO EXISTE - Compartilhando reflexões para que ele exista, e que dá apoio teórico à Campanha Homens Libertem-se/MenGetFree)



- Luigi D’andrea (Secretaria Estadual de Saúde)



- Marcelo Acetta (psicólogo, professor da UNISUAM).



Mediação: Maíra Lana



PERÍODO DA TARDE

13h

Intervenção urbana com Arte, "Homens, Libertem-se/MenGetFree".

- Maíra Lana 



- Bayard Tonelli



RODA DE CONVERSA

14h30 – 16h

“Estado e Políticas Públicas de Saúde Mental Masculina”



- Carina Vance Diretora Executiva do ISAGS (Instituto Sul Americano de Governo em Saúde)



- Juliano Mattos (Coordenação Nacional de Saúde do Homem do Ministério da Saúde)



Mediação: Christina Montenegro



RODA DE CONVERSA

16h00-18h00

A Representação da imagem do Homem na Cultura:



- Thierry Coutinho Mestre em Design e docente da Graduação em Design de Moda da Universidade Veiga de Almeida. Autor do projeto "Que homem é esse?!", que estuda o "novo homem" e suas subjetividades através da moda e da comunicação.



- Daniel Campos, doutorando da UFRJ, pesquisador da temática da violência e saúde do homem.



- Michel Robin Rabinowitz – Escritor, terapeuta, ator e dançarino.



Mediação: Maíra Lana



ENCERRAMENTO

18h

“Homens, Libertem-se/MenGetFree!” Encerramento  com  Maíra Lana, Christina Montenegro, Marcello Acetta, Josie Pontes, Renato Lima, Cida Ramos, Bayard Tonelli, Carlos Tonelli.



LOCAL:



Caliel Padaria Bar Mercearia

Rua Francisco Graça, loja 60A, Morro do Salgueiro, Tijuca

Rio de Janeiro



COMO CHEGAR?


Descendo na estação do metrô Saens Pena (Praça Saens Pena) ir em direção à Rua Gabriela Padro que fica atrás do Shopping 45, lá tem disponível o transporte de vans que levam ao Morro do Salgueiro. Avisar ao motorista para desembarcar na Padaria Caliel.


IMAGEM,
por enquanto a genérica do Dia Internacional dos Homens, enquanto não fica pronta a que está sendo especialmente confeccionada para o dia.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016


PRINCESAS, SIM; E PRÍNCIPES TAMBÉM. “ESCOLAS”(?), NÃO!

Compreendo, mas não me afino com esse discurso que desqualifica o encantamento e o contato com os Castelos, Princesas, Príncipes, Felizesparasempre (etc) dos Contos de Fadas.
São os Contos de Fadas que fazem, inclusive, o papel de primeiros arautos plausíveis dos Mitos para as crianças, pedra fundamental de inserção na Cultura e na compreensão do valor do Humanismo; e trazem ainda mais benefícios.

ÓBVIO que as "Escolas de Princesas" reais que andam pipocando por aí são risíveis, (e, por que não, prejudiciais!), e que tenho pavor delas.

Já os Mitos continuam aliados da elaboração inadiável de processos inconscientes pelos quais todos passam; não só as meninas.

Pena, aliás, que meninas tenham maior acesso aos Contos de Fadas que os meninos.

Não deveríamos TIRAR os Contos de Fadas (e castelos, princesas, príncipes, etc) das meninas; devíamos INCREMENTAR sua utilização para os meninos, também.


As crianças SABEM disso; por isso pedem que contemos os Contos repetidas vezes; as crianças SABEM (intuitivamente? inconscientemente?) que aquela narração, leitura compartilhável, áudio, vídeo ou filme é um ritual de passagem.

As "monarquias" não são reais, e sim SIMBÓLICAS, assim como os príncipes, bruxas, fadas, más madrastas, bichos falantes, florestas, sortilégios, desertos, pais que "somem", os "felizesparasempre", etc
Por isso não me afino com discurso que desqualifica esse contato.
É simplista, reducionista, perigosamente racionalista e funcionalista.


São os Contos de Fadas que podem levar as crianças a se interessar em seguida pela MITOLOGIA "em pessoa", onde vão encontrar guerreiros(as), heróis(inas), reflexões sobre o 'Bom Combate' (interno, consigo mesmo), e que será a chave para o próximo passo reflexivo em seu amadurecimento: o possível amor à FILOSOFIA, cujo SIGNIFICADO elas só poderão compreender podendo fazer todo esse percurso.

A partir daí o valor do CONHECIMENTO REFLEXIVO e das singulares INTERIORIDADES humanas poderão assumir (ou REassumir?) o lugar nobre que merecem nas gerações que estão por vir, (re)abrindo os portões coletivos para a empatia, para a solidariedade para as responsabilidades do coletivo, e para a colaboratividade.


OU desejamos um futuro DE FATO reflexivo para nossas crianças, OU deixamos para elas a mera escolha da reatividade funcional e racionalista, muito pobre diante do PODER da capacitação dialógica de suas singulares interioridades.


Quem sabe minimizemos a estatística de DEPRESSÃO que parece esmagar essa geração, na medida em que diminuamos o tamanho do VAZIO interior, que é onde ela germina, que é o que a - infelizmente - aduba?...


IMAGEM, Dan Cretu

terça-feira, 30 de agosto de 2016



A melhor parte é ESSA: Masculinidades que estão FALANDO. Evito até comentar, para continuar a ampliar o espaço para as Masculinidades. Mulheres e LGBTT* já falaram bastante; urge que as Masculinidades FALEM (e SE REÚNAM!):
Texto de Anderson França (na foto)

"No dia do pagamento, meu pai me levava com ele na firma.
Isso aconteceu algumas vezes.
Lembro que eu passava o dia com ele, entre o balcão, onde ele vendia coisas, sentado no chão, brincando com fita adesiva, papel pardo, resto de embalagens.
Tinha a hora que o "patrão" chamava as pessoas na sala dele, pra dar o dinheiro.
Né mole não.
Em 1982, não tinha internet banking. Muita gente no Brasil, do Brasil do qual eu fazia parte, não tinha nem conta no banco.
Então, lá pelo fim do dia, um a um ia sendo chamado, e quando voltava, um pouco menos triste com a vida, com um envelopinho na mão, chamava o outro:
-O ôme tá chamando.
Era uma angústia.
Enquanto ele não começava a chamar, as pessoas ficavam: "O ôme liberou?"
Meu pai pegava o envelope, a gente saía pela rua, ele me comprava uma pipoca, e a noite em casa tinha cheiro de frango cozido. Algumas vezes, não muitas, jantamos juntos, minha mãe mais feliz, frango, batata, arroz, farinha.
E Bozo na TV.
Bozo xêrava pra caralho. Gravava xerado.
Mas ele só disse isso ano passado, então, ok, ele soube preservar minha ilusão com ele até a minha infância acabar de vez.
Pra você, que é fudido igual eu, sabe que não tem nada pior que esperar por um pagamento que não chega.
Diz aí.
Quantos de vocês dormem com o nó na orelha, um dia antes do pagamento.
Eu só acho o seguinte. Dexa eu pegar um cigarro.
Deixa eu te dar um exemplo.
Se meu aluguel venceu, quem me deve dinheiro, empresa de boa aparência, bem que poderia depositar a grana que me deve, de acordo com o contrato, sem um atraso descomunal.
E poderiam pelo menos não ficar chateados porque estou ligando na hora do almoço.
Mas às vezes eu acho que não sou eu que ando preocupado com minhas contas,
eles que andam almoçando demais.
Às vezes você liga, de 9 às 16h, e uscara tá almoçando.
Dava roteiro de Porta dos Fundos.
Vaga para almoçador.
-Bom dia.
-Bom dia.
-Tô vendo aqui que você fez Administração. Hmmm. Bilíngue.
-É. (rysos).
-Ótimo. Tem experiência em CAD 3D. Em DOS. Em Banco Imobiliário. Em Facebook.
-É que eu sou facebooker também nos fins de semana, com ênfase em racismo inverso e esquerda bundabranquista.
-Olhaaaa! Que ótimo! Sabe almoçar?
-Como?
-Almoçar, sabe almoçar? Comer. Rangar. Encher o rábo de comida.
-Sim, eu..acho que...eu sei.
-Fez onde?
-O almoço? Em casa mesmo.
-Não, bobo. (reezos). O curso.
-Ah. ... ESPM com ascendente em IBMEC e Mercúrio em Mackenzie.
-Ótimo. Que delícia. Consegue almoçar das 9 às 19h? Porque aqui é puxado hein??!!!!!!!!! (RISOS)
-HAHAHAHAHA (RISOS), CONSIGO. Pega no almoço às 9?
-É. Mas tem que chegar às 7, pro café. Café de 7 às 8:59, depois almoço de 9 às 19h. NÃO É MOLE NÃÃÃO essa firma!!!! Tá contratado!
-Tá! Vou só terminar de almoçar aqui rapidinho pra ir almoçar contigo.
RISOS
Pior que isso é todos nós sofrermos por causa do dinheiro que está na mão dos outros, ou ficar se cobrando pra ter um padrão de vida melhor.
Pode ser essa venda de espuma da Bel Pesce, Erico Rocha e dezenas de outros palestrantes, que são verdadeiros criadores de gente frustrada, que nunca vai conseguir atingir 347% de meta, mas vão se sentir culpadas por nunca serem como eles são.
E é mentira que o sistema te ajuda.
Dando aula na Universidade da Correria, eu preparo mais as pessoas pra lidarem com o fracasso, que com o sucesso.
Porque o que é o sucesso mesmo, né queridos?
Já fui duro, já ganhei dinheiro, e hoje tô devendo Santander Brasil, que me fudeu quando eu mais precisava, botou um gerente sete um na minha agência no Alemão, e vem com esse papo de "o que podemos fazer por você hoje?"
Simples.
Vejam quanto dinheiro botei aí nos últimos anos, e não sejam cretinos de botar gente me ligando a cada 10 minutos. Eu não atendo. Não vou pagar minhas dívidas atendendo telefone, mas trabalhando, e vocês sabem bem que eu trabalho.
E quando você precisa da grana e o Bradesco simplesmente fica com o sistema fora do ar, e você passa o dia com 12 reais na mão, precisando pagar porrada de gente, família no aperto, tudo mais,
dá uma sensação de que o dia se perdeu e você tá no caminho errado.
Ontem,
na Barra da Tijuca, área nobre,
um homem esfaqueou a mulher quando ela dormia,
jogou os dois filhos pequenos do alto do prédio,
e se jogou também.
Ontem, no TRT da Barra Funda, São Paulo,
um homem se jogou do alto do prédio abraçado a filha de 3 anos.
Tem pouco mais de um mês,
um empresário de uma cidade paulista se enforcou no galpão da empresa.
No caso da Barra da Tijuca,
o homem escreveu uma carta.
Disse que não ia conseguir manter o padrão de vida da família.
Que não tinha conseguido pagar um plano de saúde melhor.
Que ia ficar queimado no mercado. Porque não estava mais satisfeito com a empresa, e sentia que estava sendo colocado de lado.
Seja empreendendo, seja como assalariado,
sua vida vale mais que o dinheiro que você deve.
Podem te chamar de caloteiro. De derrotado. Fodace.
A sua vida vale mais que o sorriso do presidente do Santander, na Espanha.
Mas é ainda mais que isso.
Percebam que eu tô falando de homens, e quero falar com eles.
Esses homens foram vítimas de si mesmos.
MAS TAMBÉM vítimas da máquina patriarcal, machista e opressora, que nós, homens, criamos para nos destruir.
Quem tem a pica maior.
Quem fode mais.
Quem bebe mais.
Quem tem o melhor carro.
O melhor emprego.
Casa.
Salário.
O homem precisa ser o provedor, mesmo tendo companheiras que vão ser compreensivas se a gente sentar no sofá um dia e simplesmente chorar com elas.
Do tipo: não deu.
Tô assumindo. Quero a minha família me apoiando.
Caras.
Precisamos chorar. Se matar não é o caminho.
Hoje foi um dia de merda para este que vos escreve.
Mas fiquei em casa, com os meus.
Perco tudo, menos a compreensão de quem está do meu lado.
Mas eu choro, caras. Eu reconheço minha fragilidade.
Não sou Bolsonaro, que vendo o filho morrendo, manda ele pagar flexão.
Caras,
a obrigação de sermos homens está nos matando.
Precisamos falar sobre isso.
Porque meu pai, depois de tantos anos pegando envelope,
um dia,
não aguentou a pressão,
e sumiu.
Precisamos falar sobre isso.
(Dedico esse pensamento ao Eduardo Henrique Souza Baptista. O Dudu. Pai, amigo, filho da Mãe Silvia. Ele é um cara que sabe. Te amo, Dudu.)"



Feliz por ver um representante das Masculinidades falando autonomamente; daí eu preferir mostrar o texto que comentá-lo:
Texto de Nando Araújo (na foto)

"Entenda que dizer que um problema afeta, na maioria das vezes, os homens, não significa que ele não afeta as mulheres. Essa relação de anulação maluca de vocês é um erro.
Agora querem dizer que suicídio não é um problema majoritariamente do gênero masculino e vem argumentar com a mesma lógica de quem chega pra dizer que violência doméstica não é um problema do gênero feminino, porque existem alguns homens que também sofrem com ela. Em ambos os casos é preciso entender que o problema afeta uma parcela específica da população com mais frequência (não com EXCLUSIVIDADE) para tentar encontrar uma maneira de reduzir sua incidência. No caso do suicídio, por exemplo, tem o recorte claro de gênero, mas também dá pra traçar outros importantes, como idade, classe, raça, orientação sexual... todos eles são importantes para entender que o problema pode surgir por razões específicas, dependendo do recorte, MAS NENHUM RECORTE ANULA O OUTRO.
Eu entendo a preocupação das feministas em lembrar que mulheres se matam. Eu, como ativista LGBT, também poderia fazer isso, já que a taxa de suicídio entre jovens é muito mais alta se o jovem for LGBT. Mas no quadro geral os homens se matam mais (assim como matam uns aos outros), então é preciso reconhecer que esse problema (que é de gênero) existe sem tentar fazer disso uma competição. Gastem essa energia pra estudar esse assunto tão sério ao invés de ficar brigando por aqui. Ele pode estar bem mais perto de você do que você imagina. Cuidemos uns dos outros ao invés de brigarmos."



É, querida Laerte Coutinho; a fraude, a farsa, a deturpação, a misoginia, a inveja, a volúpia por poder (a qualquer preço) não tem limites.
Por menos que eu tivesse motivos para aplaudir a gestão Dilma, a ausência de caráter abjeta que se exibe (afinal assim são os fascistas) é um perigoso golpe, que vai repercutir sobre toda uma geração, com suas garras nacísicas e retrógradas.
Lamento pelos netos de todos, inclusive os netos dos fascistas.
E - agora, SIM - Dilma conquistou em mim uma simpatizante, a nomenclatura 'Elite' passou a fazer um sentido que não fazia até então, e não acredito por hora na tal da 'Meritocracia', que sempre defendi veementemente.


sexta-feira, 5 de agosto de 2016

                          - ALÔ, MASCULINIDADES -

Masculinidades, mais do que nunca urge que se reúnam autonomamente, na medida em seu grupo de Gênero está 'atrasado' nesse QUESITO EXISTENCIAL. Melhor ainda: é DIREITO seu conquistá-lo, é POTÊNCIA sua fazê-lo.
A Mulher já o fez, e se fortaleceu; os LGBTT* já o fizeram e se fortaleceram. Tornaram-se, cada um deles, um significativo Ator Social, por isso reconhecidos e ouvidos cada vez mais institucionalmente, na representação de seus coletivos.
O que as Masculinidades estão esperando?... MASCULINIDADES (homens heterossexuais, homens homossexuais, transgêneros, no mínimo vocês!) REÚNAM-SE!
MASCULINIDADES, COMPARTILHEM REFLEXÕES SOBRE O LEQUE DE SUAS CARACTERÍSTICAS IDENTITÁRIAS para conhecê-las melhor, e poder se organizar melhor ao redor das suas questões!
Não aguardem convocação institucional para isso! MASCULINIDADES LIBERTEM-SE DE TUDO QUE NÃO LHES INTERESSE MAIS, e SEMEIEM novidades para as Masculinidades que nascem agora, e que nascerão!
Pode começar no seu prédio, no seu lugar de estudo, trabalho ou lazer; lugares não faltam! Dê o primeiro passo!...
E, mesmo que as Masculinidades se tornem o Ator Social que está faltando no TERRITÓRIO do GÊNERO, JAMAIS abram mão de suas SINGULARIDADES.
Não há evento Cultural que justifique o desequilíbrio, por supostas hierarquizações teóricas de ocasião, entre os universos Individuais e Sociais.
Uma Sociedade que não dê continências às Singularidades, e aos seus 'filhos', a Arte e o Humor, talvez não seja EXATAMENTE uma Sociedade; talvez seja apenas um enxame, ou um curral próprio à boiadas...

IMAGEM, 'O fazendeiro e o pássaro', de Norman Rockwell

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

AGOSTO , PAI NA AMAMENTAÇÃO:



              MASCULINIDADES REÚNAM-SE!

Chore contemplando a imagem, ok; em seguida reflita; aí se reúna com as Masculinidades próximas de você, e converse:

https://media.giphy.com/media/3oEjI4IHiFsTtNnOQE/giphy.gif


Fui honrada com o convite para participar do processo de validação dessa Pesquisa preciosa coordenada por Romeu Gomes, promovida pela FioCruz. Foi um prazer IMEEEENSO receber o material que exibe o resultado, que aplaudo com entusiasmo.
Meu carinho especial a alguns dos envolvidos, cujo compromisso com essas questões acompanho (inclusive) por aqui, compartilhando-o em meu nome e em nome da Campanha Homens Libertem-se/ Men Get Free: Eduardo Schwarz, Angelita Herrmann e Lidianne Albernaz.
Tenho certeza que as Masculinidades de todo Planeta têm ainda mais motivos que eu para estar gratas pela iniciativa.
Vejam, abaixo, as capas do resultado do Projeto, teórico e prático:





terça-feira, 2 de agosto de 2016


E relembro: se os meus amigos Psi quiserem saber porque escolhi a 'Atitude', me perguntem por e-mail, que eu explico direitinho, ok?
Obrigada Prof Carlos Absalão e Neise Ventura; e longa vida à 'Atitude'!


terça-feira, 28 de junho de 2016


O problema dos casos de criminalidade NÃO é da Lei Rouanet, e muito menos da classe artística!
Se não fossem as informações dadas pela própria classe, e pelo próprio MinC, a PF não estaria chegando aos reais fraudadores!
O problema está nas empresas captadoras, de advogados e de "produtores culturais" de fato corruptos; estes, sim, não são artistas, e sim criminosos.
Como em todo o 'bololô' empresarial, há muita gente de má fé!
Você, como eu, tem alguma coisa contra a Ciência ou contra os remédios? Não, certo?
No entanto os Laboratórios tem um "setor-máfia" perigosíssimo!
Nós é que precisamos nos tocar que isso não significa que a Ciência seja "bandida", ou que todo remédio seja uma produção de má fé.
Tal e qual.
Mas não costumamos invejar a Ciência ou os remédios...
Uma consequência imediata que vamos ter agravada agora, muito provavelmente, é o acirramento da demonização tanto da Lei quanto da classe artística.
As pessoas vão (inclusive por suas invejas particulares, já que a maioria tem a alma muito mixuruca) tender a interpretar que a Lei é “instrumento de enriquecimento ilícito de artistas”, e que “os artistas são os bandidos", e vão demonizar um imenso grupo profissional que – na verdade - exercita a reflexão da espécie (dita) Humana, e apura o senso crítico da Sociedade.
Isso é lamentável, um desastre perigoso, que engrossará o melífluo discurso fascista, que odeia os artistas, que historica e inevitavelmente os denunciam, por motivos óbvios - basta lembrar o enredo de 'Hamlet', e os artistas que tudo denunciam usando sua Arte.
Muitos cairão no canto dessas sereias perversas, descendentes de Goebbels.
Ao fim, os verdadeiros bandidos serão presos (se os deuses quiserem!), mas a massa da população vai demorar muito para entender que joio é joio e que trigo é trigo.
A inveja da beleza, da inteligência, da verve, do riso, da alegria move uma boa parte do mundo; nesse caso para o inferno da grosseria, do pior pedaço do que pertence ao ser humano, infelizmente...


terça-feira, 14 de junho de 2016


OBS. : Por favor, LER antes os textos dos seguintes 'links':
1.) http://harpersbazaar.uol.com.br/bazaar-kids/escolas-do-reino-unido-aderem-ao-uniforme-genderless/
2.) https://www.nexojornal.com.br/especial/2016/06/08/Nem-de-menino-nem-de-menina.-Apenas-brinquedos

Sabem porque essas iniciativas não chegam a me "entusiasmar" (compreendo, mas não me entusiasmo)?
NÃO acredito em benefício através de um "futuro andrógino", onde Gênero se tornaria uma espécie de 'geleca' com "todomundoigual'.
Já vi essa proposta ser colocada com tamanha 'veemência', que ficava claro na exposição o risco de estarmos diante de "MAIS-DO-MESMO".
"Mais-do-mesmo", diante de simplesmente arriscarmos repetir as tolices do passado/presente, já que "imposição do tipo x", ou "imposição do tipo y", são irmãs gêmeas e siamesas em seu caráter impositivo, autoritário e arrogante, pouco "libertários" de fato...
Afirmar categoricamente que "o certo é existir apenas masculino e feminino", OU afirmar que "o certo é não existir definição", dá no mesmo, uái!...
Por que não apenas observar o quê emerge de cada indivíduo, e - aí sim - acolher o que emergir (o que depende de estar preparado POR DENTRO para esse acolhimento)?...
E, como sigo Wittgenstein quando ele diz que "Se alguém diz 'o certo é isso', a única coisa certa ali é que aquele alguém parou de pensar", ao contrário de afirmar que alguma coisa é "certa", prefiro apostar na proposta da livre PLURALIDADE, nomenclatura e conceito que tem o dedinho da Hannah Arendt também...
Faço - SIM - o aplauso sistemático à singularidade.
Por que não faria o mesmo 'elogio-aplauso-escolha' pensando na questão do Gênero?...
Acredito nos benefícios de um futuro plausível de GÊNERO PLURAL E LIVRE, com uma "paleta" infinita de possibilidades de expressão de Gênero, sem discriminações a nenhuma, num processo COM direito à AUTONOMIA de cada sujeito, sem "atividades estimulantes" NEM para um lado ("feminino + masculino e ponto final"), NEM para o outro ("todomundoigual").
Modificar o que está "do lado-de-fora", o externo, o material, acaba acontecendo naturalmente quando nos preocupamos ( e nos ocupamos) com as modificações "de-dentro-por-dentro", as elaborações plausíveis e graduais das interioridades referentes ao assunto.
Isto significa que Ética e Estética funcionam ainda melhor quando funcionam em uníssimo. O que depende do universo das interioridades não responde bem a "decretos", mas costuma responder satisfatoriamente à ILUMINAÇÃO que a reflexão orientada produz.

sábado, 28 de maio de 2016


REFLEXÃO SOBRE ESSE MOMENTO TRÁGICO:

Tenho medo da rejeição e do recalque da sensualidade e da sexualidade, que são ótimas, e poderiam ser louvadas para quem tem talento para tal (e nem sempre esse talento surge nas(nos) idealizada(os) "bonitas/bonitos-padrão").
Estupro não vem do desejo por sexo, e sim da PER-versão do desejo por Poder e de Submissão do Outro.
Logo, reprimir o apelo sensual/sexual NÃO vai reprimir o tesão pelo estupro, que é de outra ordem.
O Caldo Cultural Patriarcalista-Patrimonialista age por outros meios, é fenômeno antigo, que nos embebeda a todos (não só a estupradores), que não vai ser desconstruido pela mera punição, e muito menos pela rejeição-recalque do que é positivo, criativo, e saudável.
Espanta-me, inclusive, dentro desse aspecto do assunto, a repressão/condenação do humor e da alegria embutidos no assunto, sem os quais a alma fenece, a Poesia fica pobre, já que pobre e pouco sorridente ficam o Erotismo e a Sedução (valores mitológicos de Afrodite que ainda trazemos no sangue, e que se expressam quando não há repressão/recalque).
Buscar criminalizar a vítima é se tornar o trigésimo quarto estuprador, e é uma reação tão antiga e inadequada quanto o Caldo Cultural Patriarcalista-Patrimonialista.
É tão PER-verso quanto o estupro em si.
É sempre um perigoso equívoco, aliás, quando a PER-versão é "louvada".
Assunto paralelo ao debate do caso recente: o que é que alguém pode ter contra um RITMO???...
Não entra na minha cabeça a criminalização – por exemplo – do Funk...
Da mesma forma, "letras malandrinhas" para as músicas, com segundo e terceiro 'sentidos', SEMPRE existiram. Há 'duzentos anos' atrás, quando eu tinha uns 5 anos, já ouvia algumas, inclusive tocadas no rádio.
So what? Quando há Educação ao redor, a gente aprende a hora e o lugar de lidar com o humor e o erotismo sem ferir quem quer que seja.
O limite começa no Outro. E a Educação também foi feita para exercitar o que significa o ‘o tal do Outro’ a respeitar.
Sem querer ser ‘auto-referente’e já irresistivelmente sendo, lembro que sou Psicoterapeuta, e trabalho também com Ações Responsáveis, especialmente as voltadas para as Masculinidades, tenho 66 anos de idade, e mais de 40 de exercício profissional, com livros publicados e tudo (Creio que isso me fornece uma credibilidade mínima, certo?...rsrsrsrs).
MAS... 'apesar da idade' (?!) não perdi o humor, e continuo fazendo aulas de dança diárias, que vão de balé clássico a FUNK TAMBÉM... Aliás, nesse quesito, "quebro tudo", e morro de rir.
Isso NÃO impede que, ao chegar em casa, eu ouça Händel, Duke Ellingtom, João Gilberto, e Itamar Assumpção (com uma passada ritual por Arnaldo Dias Baptista dos Mutantes, claro).
Por essas e outras me dedico (como disse) ao estudo e a abordagem reflexiva das Masculinidades, o que me obriga a uma interdisciplinaridade de interesses e estudos, já que é a Cultura que está em questão num primeiro plano.
Infelizmente a maioria dos indivíduos e das instituições não dá a menor pelota para o tema, e tenho muita dificuldade de levá-lo adiante.
E enquanto não nos dedicarmos seriamente a esse estudo e a essa abordagem reflexiva, pouca coisa mudará.
Não é mero "achismo" meu; muitos autores planeta afora amparam minha hipótese.
Punição dos PER-versos e/ou criminosos DEPOIS é pouco, e pouco eficaz em termos de reais mudanças, como temos visto.
Muitos já foram punidos, e o fenômeno se mantém.
Creio que está evidenciado que é mais importante a PREVENÇÃO ANTES.
Doente é por si mesmo o Caldo Cultural Patriarcalista-Patrimonialista no qual estamos todos imersos; basta ver o inacreditavel número elevado de mulheres que TAMBÉM criminalizam a estuprada (e até ritmos!)....
Dessa imersão nesse insalubre Caldo podre, emergem, SIM, eventuais monstros deformados, particularmente PER-vertidos.
Mas sem a abordagem reflexiva das Masculinidades sobre suas características identitárias (que permanece numa espécie de 'ponto cego' graças ao próprio Caldo), pouca coisa mudará, se transformará, na questão do estupro (individual, coletivo, genocida em guerras, etc).
Muito menos mudará "rápido".
O imediatismo tende a ser preconceituoso, precipitado, e estéril, inclusive; daí sua restrita credibilidade ou consistência.
Graças aos bons deuses, a Mulher ao menos está organizada, e isso já protege, acolhe e ampara muitas mulheres.
Se queremos que o fenômeno em si seja transformado, precisamos (e podemos) construir pontes de atuação.
Estou com aqueles que propõem a Educação Sexual, claro que com Educação Afetiva e do Amor ao Outro incluída, a médio e logo prazos, mas com consistência.
É de pequenino que...


ILUSTRAÇÃO, Laerte Coutinho


quarta-feira, 20 de abril de 2016

MAIS UMA VEZ REVISTO:

IDENTIFICANDO O DANO PSICOLÓGICO POR EROTIZAÇÃO PRECOCE

(*)Baseado na primeira versão escrita em 1998, para o número 0 do Jornal do Movimento Contra a ErotizaçãoPrecoce/Angels, e revista agora).

Por mais “circunspecto” que seja o tema que - por algum motivo - eu precise estudar/abordar, não deixo de refletir sobre ele, de investigá-lo, de pesquisá-lo também através do instrumento HUMOR.
Esse caminho - nada ortodoxo - invariavelmente me reserva surpresas, excelentes informações, ou subversivas descobertas das quais não poderia abrir mão. Por que? Tragédia e Comédia na realidade jamais  se desgrudaram na História do dito ‘Humano’; quer compreender melhor um aspecto, espie o outro também...

Assim, enquanto preparava o texto para uma palestra sobre ética (para um grupo de estudos), descubro e reservo, perto da pilha de livros, uma “tira” de humor do poético cartunista Laerte, publicada na Folha de São Paulo.
Nela, o Diabo procura Deus, pedindo ajuda para colar a tampa de seu relógio, que teria se soltado. Deus, que aparece lendo Filosofia, o atende e pega logo a cola; mas, ao fazer isso, os dois (trapalhões?...) acabam colados um ao outro, e o relógio permanece quebrado...
O Diabo comenta o resultado: -“Ih! O tempo parou!...”
Deus acrescenta com certo tédio: -“Ora! E eu lendo metafísica!...”

Também aqui seria impossível pensar no assunto excluindo as questões Estéticas: a plausibilidade do tempero do Humor, de seu peculiar e estimulante senso crítico.
E muito menos excluindo as questões Éticas, “diabos e deuses” colados/costurados, “tempos parados”, eternos retornos, e filosofias, às vezes imersas em certas per-versões pós-modernas, isto é, freqüentemente restritas à retórica...mas “não vividas”. Discursos e Ações per-vertidamente divorciados.

Quando dualidades estruturais (como essas: DISCURSO x AÇÃO) estão divorciadas, se distanciam perigosamente do elemento que cuidaria do diálogo plausível entre elas: a RESPONSABILIDADE.

Creio que não precisamos lembrar que esse movimento - (Movimento Contra a Erotização Precoce) - não traria de volta a criança de outros e passados tempos, a quem os assuntos sexuais, e/ou o desenvolvimento da SEXUALIDADE em si, seriam negados ou proibidos, por discursos e práticas do tipo:
 (Negados) -“Crianças são tão inocentes, que nem têm isso, nem sentem essas coisas!”
(Ou sumariamente proibidos) -“Crianças são inocentes; não devem, não podem aprender essas coisas!”.
A intenção dos responsáveis pelo Movimento não é essa.

Pelo contrário, o Movimento reivindica o DIREITO DA CRIANÇA a uma orientação adequada a cada etapa evolutiva de seu (singular, pessoal e intransferível) desenvolvimento, que tenha ESCUTA e que RESPEITE O OLHAR DELA SOBRE A SEXUALIDADE, CONDIZENTE À SUA FAIXA ETÁRIA.
Tudo CONDICIONADO À ESPONTÂNEA SOLICITAÇÃO da criança, claro.

Claro que há filigranas de definição de “erotização”, ou mesmo de “precoce”, que podem vir a “evoluir” ou a se transformar (talvez!) com o tempo (hipótese levantada, por exemplo, pela psicanalista Elizabeth Roudinescu).

Mesmo assim, poucas dúvidas pesariam sobre a opção de preferir o Olhar da Criança, pedido por ela, apropriado aos limites de seu corpo, de seu desenvolvimento afetivo e intelectual, a quaisquer imposições/invasões violentadoras, fruto do Olhar de quaisquer adultos.

A psicanalista Susan Isaacs um dia perguntou:
...“O quê pode ser mais nocivo para a bondade e a felicidade que a circunstância de ser induzido a pensar que a própria existência teve suas raízes em algum mistério vergonhoso?”... (Tradução minha; “Anos de Infância”, Editiones Hormé; pág. 129).

“Vergonhoso”, pode ser inclusive: - tanto o que seja proibido e transformado em tabu, - quanto o que seja constrangedoramente (ou violentamente) imposto, invasivamente.
Exatamente por não ser vergonhoso, e sim sublime como a própria Vida, (porém tão complexo quanto à própria Vida), o processo de inserção no universo da sexualidade ou erotização merece cuidados.
Os mesmos cuidados que merece o processo de inserção no universo genérico da autonomia, no universo sagrado da singularidade.

Susan Isaacs, neste mesmo livro, lembra que as inevitáveis primeiras perguntas sobre a sexualidade, atravessam a sexualidade, para perguntar - na verdade - sobre a EXISTÊNCIA.
São perguntas existenciais, que evidenciam - em primeiro lugar - a inserção de mais um ser vivo na metafísica; aquele pequeno indivíduo quer, na verdade, exibir sua recém-adquirida “carteirinha de ser – humano”...

Segundo Susan Isaacs, é como se a criança dissesse:
“-Ei! Preciso aprender sobre essas coisas misteriosas que ando intuindo, porque já percebi que não sou uma pedra, não sou uma florzinha, nem um animal qualquer; quero que vocês saibam que percebi que somos um grupo, que eu pertenço a este grupo, e que isso serve para alguma coisa!...”.

É o recurso que a criança tem de entrar para o “clube” dos seres que se preocupam (e como seria possível estar vivo e não se preocupar?...) com as mais estimulantes perguntas do universo:
“De onde viemos? Para quê estamos aqui? Para onde vamos? Por que o Ente e não antes o Nada?...”
“O SENTIDO? Onde está o SENTIDO?”, é outra (nobre?) pergunta freqüente na produção poética humana (inclusive a poética e humorística).

Sem direito (ao menos!) à autonomia do perguntar: -“Onde está o sentido/significado de existir?”, um ser (que mereça o a categoria de humano) talvez não suportasse viver!
Não é sequer necessário ser alfabetizado para sonhar.
Mas ser autônomo e singular é fundamental para sonhar, para SER.
LOGO o processo dessa construção não pode ser nem  impedido, nem “atropelado”, nem (muito menos) INVADIDO.
O sonho, comum a qualquer ser humano, “prova” isso.
É no sonho que a sofisticação do POÉTICO se torna plausível.

Prova que a “carteirinha” que podemos dizer que a criança reivindica ao perguntar: “como ele nasceu?” ou “de onde vêm os bebês?” existe: a singular subjetividade.
Existe, e deveria ter um valor.
Valor, e não preço.

Assim: - fazer de conta que sexo não existe, - ou falar de sexo como se fosse apenas uma asséptica experiência científica de laboratório ou mesmo um  exercício aeróbico de uma academia de ginástica, - ou demonstrar (mesmo que com um único músculo facial) que aquilo é alguma coisa perigosa ou maldosa, são atitudes que vão roubar muitos  tijolos preciosos da construção das noções de valores existenciais, de valores p(r)ó-éticos da criança, noções de generosidade, quanto preciosos tijolos da construção da sua livre sexualidade...

Além disso, violentar a espontaneidade, impondo informações sobre a sexualidade – ou pior -  impô-las com o olhar malicioso DE ADULTO experimentado, se equipara à mais reles violência sexual, onde um ser exerce o seu (suposto) poder, vertical e arbitrariamente, sobre o Outro, quer falemos especificamente de episódios de pedofilia ou não.
Se o Outro é de fato uma criança, eqüivale especialmente a um assassinato, já que a singularidade original que ali se desenvolveria antes do crime não mais se manifestará: está morta, mesmo dentro de um corpo que poderá, talvez, continuar vivo.
Diante dessa funesta possibilidade não seria hora de perdermos tempo com eufemismos.

A espontânea construção da sexualidade e ou da singularidade do Outro, É O OUTRO, faz parte dele, do corpo existencial dele.
A construção do sujeito é o sujeito; é o poder-se-tornar-sujeito.

No primeiro capítulo de “Princípio Vida”, Hans Jonas comenta, com outra intenção teórica, mas ainda oportunamente, para esta nossa reflexão:
...”No corpo está amarrado o nó do Ser, que o dualismo rompe, mas não desata”...(pág. 34).

Invadir a criança com palavras, imagens, ou olhares maliciosos devia ser considerado tão CRIMINOSO quanto invadir com seu corpo, adulto ego-centrado (egoísta?) tiranicamente autoritário, o corpo até então livre do Outro.
Possibilidades de patologias individuais é um tema que merece debate específico; lembremos apenas que são episódios sistematicamente associados à identificação de abuso na própria infância do novo abusador, a se perpetuar.

Se o processo de erotização de uma criança é invadido pela intervenção maliciosa de (um) adulto(s), e o sentido existencial de seus próprios questionamentos é ignorado, a sexualidade da criança, perdendo assim seu SENTIDO, é “coisificada”.
A sexualidade dessa criança é desvinculada do ato de existir e de seu sublime Sentido...

A sexualidade da criança deixa de significar uma possibilidade de fruição prezerosa e compartilhável da existência, da Vida.
Se a sexualidade que a trouxe para a vida (ou para o existir) é “UMA COISA”, ela (a criança) também é “APENAS UMA COISA”...
Não é mais ALGUÉM; é ALGO.
Aquele ser humano, cuja existência plena iria desenvolver plausibilidades de se expressar, inclusive quanto a sua sexualidade, sem eufemismos, foi assassinado.
Indivíduos têm VALOR; coisas têm PREÇO.

Vivemos tentando fazer de conta, inclusive, que não enxergamos o gigantesco contingente de crianças cuja sexualidade/existência está sexualmente “vendida” nas ruas, ao nosso redor; ou o assunto deveria se restringir às crianças de classe média ou alta que têm “lar”, “família”, e “televisão”?...
SOMOS TODOS RESPONSÁVEIS; NOSSAS MÃOS ESTÃO SUJAS...
Eu mesma precisei participar de um vídeo-animação para a ONG ABBIA, com o título “AIDS para crianças de rua” (com roteiro de Herbert Daniel e desenhos de Claudio Mesquita, e dirigido pelo antropólogo Flavio Braune), para começar a aprofundar minhas reflexões sobre isso.
A questão nos rodeia, mas PARECE “invisível”, a não ser quando “nos incomoda” diretamente...
Afinal, coletividades estão igualmente sujeitas a patologias, o que também merece debate específico em outro momento.

Leandro Konder (entre vários outros) lembrou, um dia, numa crônica de jornal, que: ”HOJE EM DIA QUASE TODO MUNDO SABE O PREÇO DE QUASE TUDO, MAS QUASE NINGUÉM SABE O VALOR DE QUASE NADA”...
Por que será, heim? A QUEM interessaria essa banal “COISIFICAÇÃO GENERALIZADA?”...

Textos felizmente ainda com “GRANDE IBOPE” sobre ética, utilizados (subversivamente, como na ficçãode Ray Bradbury, Fahrenheit 451) são os de Baruch Spinoza (1632 / 1677), onde consta, por exemplo, que “a alma é o corpo visto através do pensamento”, ou que “a alma responde a tudo o que acontece no corpo, assim como o corpo há de sentir o efeito das paixões construtivas ou destrutivas que prosperam na alma”.

Não basta ao indivíduo ter CORPO / AFETOS / INTELECTO.
Mesmo que “TENHA” os três, ele só “EXISTE” se estes três elementos conseguirem EXERCITAR A BUSCA DA INTERAÇÃO  EQUILIBRADA ENTRE ELES.
Só ASSIM o indivíduo ganha a chance plausível de MATAR A FOME DO SENTIDO, do significado de existir...
Nó funcional que dualidades não rompem de todo...como lembrava Hans Jonas.

Lá pelo século XVIII a infância “FOI INVENTADA” (assim como a adolescência, lá pelo século XIX).
Até então não nos preocupávamos com o que caracterizava esses períodos evolutivos dos indivíduos, ou com os cuidados que os nossos descendentes mereciam em seu desenvolvimento.
NÃO; infelizmente não foram “estudiosos bonzinhos” que decretaram estas “INVENÇÕES”, e deflagraram os estudos (que ainda hoje evoluem) sobre nossas crianças e nossos adolescentes.
Na verdade foram movimentos da evolução do capitalismo, nesses momentos históricos, que precisaram de NOVOS PERFIS DE CONSUMIDORES...
Foi graças a essa demanda de Mercado que “inventamos” a infância e a adolescência...

Recente (e felizmente), o consumidor idoso também foi “DESCOBERTO”, e – assim - “INVENTADA” a “Terceira idade”ou sei lá que novos nomes esse grupo ganhe.
Que categoria de consumidor trará a próxima “INVENÇÃO MERCADOLÓGICA” - e aí sim - NOVAS consequências pedagógico-comportamentais-jurídicas?... Aguardemos!
SIM; “diabos” e “deuses” nasceram colados/costurados/misturados...

As “invenções” vieram do trâmite mercadológico.
Mas - uma vez inventadas - foram DE FATO desenvolvidas por estudiosos, que viram SENTIDO em investigar e pesquisar.
Aí sim - de fato – demos um passo à frente...
Obrigada, Sr. Mercado!...

Na época em que a primeira versão desse texto foi escrita, acontecia uma semana sincronicamente curiosa, ao longo da qual a imprensa alardeou a “nova programação infantil das Tevês”, assinalando “o quão educativas elas decidiram realmente se tornar a partir do ano em curso”...

NÃO; não me parece que “executivos bonzinhos” decretaram, arrependidos, o banimento de “inconveniências  infanto- juvenis” de nossas telas.
Na verdade, inúmeros novos produtos educativos, que precisam de consumidores, foram criados. Por exemplo, na animadíssima e ágil, mas ainda incipiente WEB; inúmeros produtos (jogos, livros, discos, etc.) educativos estão mofando no comércio em função da eterna crise econômica (e já energética), ao mesmo tempo que as escolas particulares (devido às mesmas crises), sofrem com a evasão de seus consumidores... PERDÃO!... Alunos...
É a demanda do Mercado sobre o consumidor em potencial: agora é a “criança circunspecta e futurista supostamente pronta a aprender com a tecnologia - (e a pagar por isso)” que exige a modificação do perfil de nossa programação infanto–juvenil na (ainda) poderosa mídia (que só sobrevive – aliás – a partir de seu diálogo com a igualmente poderosa voz dos consumidores).

SIM; provavelmente nossos descendentes vão “ganhar/lucrar” em aspectos não – mercadológicos, e estudiosos DE FATO terão acesso à possibilidade de interferir, e DE FATO desenvolverão afirmativamente tudo isso; DE FATO criarão um processo de transformação na informação direcionada a nossas crianças e jovens. SIM: a esperança não morre jamais.

Outro tema específico que mereceria aprofundamento, e que está trançado com o que tentamos desenvolver hoje, é o do DIREITO À PRIVACIDADE.
Georges Bataille não conseguia conceber Erotismo sem um toque de INTERDIÇÃO; quando tudo é permitido, até o erotismo se transforma em “PRODUTO”; e “PRODUTO FÁCIL DE ACHAR OU CONSEGUIR”, logo, tanto o seu “VALOR”, quanto o seu “preço” (objetiva e simbolicamente) abaixam: até o erotismo cai na problematização da “lei de oferta e procura”.
Se a "oferta" abunda, seu "valor" e o "preço" descem...
A privacidade tem paredes cada vez mais finas.
A existência dO LUGAR da possibilidade de Interdição parece eventualmente esquecido.
A criativa e enriquecedora tessitura de CORPO+AFETOS+PENSAMENTO parece frequentemente antes desqualificada que rompida com pertinência..

Seria "coincidência" a ausência de desejo (e a consequência disso, a depressão) terem aumentado assustadoramente a incidência da ausência de privacidade confundida com "liberalidade"?...
A SUPOSTA solução que primeiro aparecem são de OUTROS PRODUTOS: viagras daqui, e antidepressivos dacolá, vendendo abundantemente, e é certo que ninguém mais feliz com isso que os bolsos mercadológicos da Indústria Laboratorial ...

Isso me faz lembrar uma cena Mitológica, que envolvia as deusas gregas Hera (preocupada em manter a chama do desejo de seu marido Zeus aceso mesmo com o passar do tempo de seu casamento), e Afrodite (bela, e tida como sapiente nos sortilégios da sedução, a quem Hera decide pedir conselhos para sua preocupação). Reza o mito que Afrodite teria recomendado à Hera que não se apresentasse facilmente despida para o próximo olhar de Zeus; recomendava que antes usasse um cinto, que lhe envolvesse num bela túnica, para que ele, interditado, desejasse retirar o cinto, curioso, entretido, logo desejoso novamente... 

Outro tema ainda mereceria também um próximo aprofundamento: uma espécie de “PRÉ-CONCEITOS  no universo dos preocupados com PRECONCEITO”.
Seu melhor exemplo talvez fosse a excessiva preocupação com os Mitos contidos nos Contos de Fadas, ávida e ritualisticamente repetidos à exaustão pelas crianças, já que o ritual de repetição ali executado é o da saudável elaboração gradual de questões de evolução das interioridades de cada criança: repetem a mesma história (seja pela contação delas, seja por sua leitura, seja por filmes e vídeos assistidos) até que a “digestão” daquele universo interior se torne “palatável”, e mais compreensível.

Alguns segmentos feministas, aparentemente distanciados por motivos diversos do SENTIDO desse universo simbólico, tratam-no como se fosse “realista”, e pretendem – por exemplo – “eliminar” as figuras arquetípicas das princesas. Estou tentando apenas ‘pinçar’ e fornecer um exemplo do que anda acontecendo nesse sentido; mas há vários outros.
Isso é invasivo, logo, contraproducente para o desenvolvimento das interioridades das crianças, especialmente no que diz respeito ao erotismo delas.

Lembra a psicoterapeuta Jean Shinoda Bolen, que - por exemplo - “não vai por um bom caminho uma mãe identificada pelo arquétipo de Palas Atena – que prioriza o Saber, a circunspecção, os vínculos profissionais  – que exige o mesmo para uma filha cuja singularidade se identifica com o arquétipo de Afrodite – que prioriza a beleza, a sedução, os vínculos amorosos”. Assim, como assinala que o mesmo fenômeno poderia acontecer se imaginássemos a inversão da identificação arquetípica.
Essa exigência, quanto mais severa, mais invasiva, mais prejudicial ao universo das interioridades singulares daquela menina, inclusive no que diz respeito à sua sexualidade, por melhor que seja a intenção teórica da mãe...

SIM; o “milk-shake de diabos e deuses” é a “metafísica mais realista” que o adulto tende a desvendar, com o “tempo quebrado” - ou não - que lhe restar.