quarta-feira, 16 de julho de 2008

CRIANÇAS: MENINOS, MENINAS, JOGOS, BRINCADEIRAS, E A CONSTRUÇÃO DA ÉTICA E DA ESTÉTICA


Lembro frequentemente em meus textos que acredito num plausível “casamento da Ética com a Estética”.

Isto é: já que a própria construção dos dois conceitos, ao longo do desenvolvimento da estrutura de nossa subjetividade (ou na construção da “medula de nosso espírito”) é de tal maneira “entrelaçado”, deveria ser um DIREITO de cada indivíduo esse “entrelaçamento” continuar a ser levado em conta ao longo de toda a nossa formação, educação, e todos os seus desdobramentos (já que “formação e educação” não “ficam prontas” jamais, tal como nossa própria IDENTIDADE).

Como tento fazer a cada texto, para deflagrar uma reflexão sobre a presença desse entrelaçamento nos jogos infantis - e mais - nos jogos mais freqüentes entre meninos (ainda), e jogos mais freqüentes entre meninas (ainda), prefiro ir levantando, com calma, questões que contribuam, ao longo da leitura, para a melhor reflexão em si.

Antes que alguém saia correndo de medo, diante de conceitos que possam “parecer complicados”, lembro que a Irmã Ivone Gebara, ao trabalhar com lideranças populares do interior nordestino, fazia o seguinte exercício para que eles ganhassem familiaridade (por exemplo) com o conceito de epistemologia:

...”Num primeiro momento, tentava mostrar como era complexo e bonito conhecer alguém ou uma situação. Permitia que as pessoas relatassem, como fizeram a experiência de pensar sobre as coisas tristes, os sofrimentos e as alegrias de sua vida. Em seguida, refletia que tudo isso fazia parte do conhecimento humano. Elas percebiam as diferenças que haviam entre si, entre si a partir de seu discurso, e o quanto conhecer o próprio conhecimento era parte da vida. Umas falavam de detalhes, outras de percepções globais, ou de sentimentos, antes mesmo de contar um fato. Percebiam que se podia falar de uma maneira simples de coisas que pareciam tão complicadas.

Devagar, os preconceitos desapareciam e as pessoas começavam a perceber que uma palavra à primeira vista hermética nada mais é do que um convite a pensarmos como conhecemos as coisas e a nós mesmos.”...(Gebara, I.; 1997, p.28; negritos meus).

Alguém duvida que o método da Irmã Ivone inclui ética (no respeito ao valor do saber de cada membro de seu público, por exemplo) e estética (não só no estilo da liberdade criativa do método, mas também na criatividade libertária ali contida e doada, por exemplo)?

Lembremos que - curiosamente - epistemologias há muitas, e divergem.

Muitos autores, como a socióloga e psicanalista Marlise Matos, resistem (por exemplo) a aderir a epistemologia de posições críticas escoradas apenas na “negação” (descrever o mundo, e/ou aquilo que o habita, pelo que eles “não são”, OU mesmo identificando, sistematicamente, as características das coisas como (em princípio) “negativas”, "erradas", “em falta”, etc...).

Muitos autores, inclusive Marlise, preferem olhar para plausíveis pontos de “afirmação”, igualmente presentes na busca de conhecimento de vários assuntos (inclusive o nosso!).

Marlise o justifica na própria história do pensamento:

...”Para os autores de Frankfurt, no Capitalismo temos a extinção da

‘energia estilística‘ (verdadeira) do Ocidente, que se transforma em tradução estereotipada: esquema de reprodutibilidade mecânica que domina e controla de cima a baixo, o social e o subjetivo”...

...”Como evidenciaram os frankfurtianos, na Modernidade do Capitalismo Tardio, a esfera da cultura foi envolvida pela dimensão industrial / racional / instrumental, e sua posição crítica estaria epistemologicamente escorada na ‘negação‘, antecipando inclusive, boa parte do movimento desconstrucionista presente nas correntes Pós-Modernas que o sucederam”... (Matos, M. ; 2000, p. 111).

Nada contra - claro - o exercício de desconstruir (para melhor reconstruir depois) no processo de busca de conhecimento das coisas.

O risco apontado por estes autores (Marlise inclusive) diz respeito a uma espécie de “amnésia de conveniência” de alguns teóricos, que opta por se satisfazer com a aparência dos resultados iniciais de alguma pesquisa; que opta por “esquecer” levar em consideração o que “se afirma no concreto” se nos dermos ao trabalho de aprofundar nossa pesquisa da concretude de meia dúzia de fatos; que opta por negar o que “se mostra auto-evidente”, antes no jogo relacional dos dados envolvidos que no embasamento teórico de alguma hipótese; ou negar o que se mostra capaz de se “afirmar pela experiência prática” (como se esta fosse “menos nobre”, por exemplo), etc.

As pesquisas de Carol Gilligan sobre a diferenciada construção da ética em meninos e meninas são - ainda - o melhor veículo para refletirmos sobre o assunto em si, e acrescento o “tempero” que proponho: o casamento da Ética com a Estética, nesse processo.

Foram publicadas aqui por volta de 1982. Lembra Carol, logo no início:

...”Os teóricos da psicologia caíram tão inocentemente quanto Strunk e White no mesmo preconceito observacional. Adotando implicitamente a vida masculina como norma, tentaram vestir a mulher com um traje masculino. Tudo recua, evidentemente, a Adão e Eva - uma história que conta, entre outras coisas, que se você faz uma mulher tirando-a de um homem, você está destinado a entrar em apuros.

Na vida, como no Jardim do Éden, a mulher tem sido a desviante”...(Gilligan, C.;1982 , p.16; negritos meus).

Logo, ela avisa que suas pesquisas e conclusões TAMBÉM rejeitam quaisquer epistemologias de posições críticas escoradas apenas na “negação” (repito: descrever o mundo, e/ou aquilo que o habita, pelo que eles “não são”, OU mesmo identificando, sistematicamente, as características das coisas como - em princípio - “negativas”, "erradas", “em falta”, “desviantes”, etc...).

Por exemplo: “mulher é o que um homem não é”, ou “mulher não é o padrão ideal”, ou “mulher por princípio é desviante”, ou mesmo “mulher por princípio é errada”, um “ser-em-falta”...

Que sorte a de nossas crianças contemporâneas!

Pois suas pesquisas revolucionaram a visão sobre a construção da ética nos jogos infantis, o que - por sua vez - revolucionou MUITA coisa, a começar por todos os estudos de gênero realizados até a ocasião e depois dela!

Renovaram inclusive a observação das “estilísticas de existência” como assumem alguns autores, como o psicanalista Joel Birman.

Porque não incluir aí “estilísticas de gênero”? Isso - “estilísticas” / estilo - já pertenceria ao universo da estética...

Onde andam o “BEM” e o “MAL”, ou o “CERTO” e o “ERRADO”, andam o BELO e o ESTILO, a começar por “nosso lado de dentro”, em cada um dos “tijolinhos” que vão nos tornando...aquilo que vemos que vamos nos tornando (já que não “ficamos prontos” nunca).

Num rude resumo, as primeiras pesquisas sobre jogos infanto-juvenis preferidos pelos meninos e jogos infanto-juvenis preferidos pelas meninas, visando a avaliação de sua construção ética, foram elaborados (em diferentes lugares e momentos) por Jean Piaget, Janet Lever, Laurence Kohlberg e Erik Erikson.

Segundo a avaliação destes primeiros resultados (também rudemente resumidos):

a) A elaboração legal das regras supostamente fascinava os meninos; a divisão entre “certo” e “errado” é a mais rigorosa possível; o mais divertido é vencer; vence o que derrota os outros (por exemplo, no futebol ou na luta).

b) Já as meninas se deixavam fascinar pela condescendência, pela possibilidade de negociações, pela possibilidade de dar continência às exceções, e por ser tolerantes com as inovações, havendo muito debate entre elas sobre o que é certo aqui, mas acolá não o é mais; o mais divertido é estar envolvida na brincadeira; de preferência, ao contrário de vencedores, há participantes (por exemplo, pular corda, ou desenvolver uma história a partir de brincar-de-casinha).

A opção dos meninos pelas regras (“leis”) era visivelmente priorizada e valorizada como positiva, não só para cada menino que o assumia, mas também para o contingente masculino ali representado, e para a sociedade que o acolheria no futuro.

Lembremos: essa foi a epistemologia elaborada a partir dos resultados obtidos pelos primeiros pesquisadores, ainda imersos num “caldo cultural” ainda mais patriarcalista que o contemporâneo; logo, ainda mais excludente.

Era dito por estes pesquisadores (nem tão veladamente assim) que a moralidade dos meninos era consistente e clara (logo “boa”), enquanto que a moralidade das meninas era duvidosa (logo desqualificada), inclusive sendo comentado por alguns destes autores que isso garantiria um futuro sucesso empresarial para os meninos...mas não para as meninas!...

Nem vou perder tempo lembrando o quanto se enganavam estes pesquisadores quando olhamos, hoje, ao nosso redor; o mais divertido, é que os jogos infanto-juvenis ainda nem sofreram alterações tão radicais assim em sua estrutura! Basta observar os brinquedos internéticos que mantêm caráter extremamente diferenciado no direcionamento que diga respeito ao sexo / gênero de nossas crianças. Observemos que ser “diferenciado” NÃO é o problema; o problema está nos DESDOBRAMENTOS da diferenciação, que CONTINUAM favorecendo a rivalidade, a hierarquização, a “educação” para a exclusão.

Coube a Gilligan, C.(1982) levar o próprio Kohlberg (seu Professor Orientador algum tempo depois dos primeiros estudos), a refazer com ela as pesquisas, já com o novo olhar criativo, “pós-feminista”, “pós-algumas-outras-muitas-coisas”, agregado teoricamente à possibilidade de avaliações afirmativas, inclusive.

Olhar este que multiplicou as pesquisas referentes à comunicação de meninos e meninas, o processo educacional “adequado” a cada grupo, etc.

Isto abriu as portas para “instâncias afirmativas” diversas.

Ainda nos anos 90, por exemplo, assisti ao vídeo de uma pesquisa canadense, elaborada em algumas escolas, em turmas que equivaleriam aos nossos últimos anos do primeiro grau escolar.

Era perguntado aos meninos o que eles seriam quando crescessem; muitos respondiam “médico”, “advogado”, “engenheiro”.

Em seguida, era perguntado o que seriam quando crescessem, caso tivessem nascido meninas; todos respondiam: “enfermeira”, secretária”, “dona-de-casa”...

Eles demonstravam, claramente, qual é o “caldo cultural” que (AINDA!) os rodeia...

Por sua vez, as meninas, não distinguiam o que seriam ao crescer, tendo nascido meninas mesmo, ou hipoteticamente meninos!

O “caldo cultural” é o mesmo, mas as transformações sociais inseridas nele TAMBÉM já foram absorvidas por elas.

As meninas se sentiam - apesar do “caldo cultural” ainda tão patriarcalista - autorizadas a brincar de se projetar como desejavam!

Autoridade, antes de pertencer ao significado de hierarquia, pertence ao significado de AUTOR, afinal...

Esta avalanche de pesquisas sobre todos estes assuntos que vão atingir a “estilística” reinante depende, até hoje, da avaliação desta mesma ética revista e resgatada por Carol Gilligan (1982) e seus contemporâneos colegas em todo o mundo. Está longe de ter sido interrompida, como o comprova no Brasil - por exemplo - o trabalho em curso de Marlise Matos.

Vejamos, por exemplo, o que nossa própria pesquisadora publicou, pela UFMG, sobre as “reinvenções dos vínculos amorosos” (casamentos que tentam se estabilizar com novas estilísticas de vinculação e acordos) onde, por exemplo, a mulher vai para o mercado de trabalho e o homem responde por tarefas domésticas, casamentos entre pessoas do mesmo sexo, casamentos ditos “abertos”, casamentos a três, experiências familiares comunitárias, etc.):

...“Assim, procuro propor aqui ‘a experiência dinâmica entre os gêneros‘ (um deslocamento da esfera macro / cultural para a dimensão da agência / subjetividade) ‘como instância estética afirmativa (não negadora) ainda crítica, dessa mesma modernidade’.

Proponho que a dimensão do estilo (de uma ‘energia estilística’) teima em sobreviver e a se afirmar positivamente, tendo se deslocado para as esferas de mediação interacional / relacional, como darão testemunho aqui as alternativas de estabilidade conjugal”...;

...” é na ‘construção de suposições e pré - entendimentos compartilhados’- um ‘horizonte semântico’ - que experiências básicas de construção da esfera comunal e social se dão, com bases claras na responsabilidade e na confiança mútuas“...

”Nos relacionamentos íntimos, a confiança estabelecida não vai se basear em regras, procedimentos ou quaisquer outras ordens de formalidade, mas no investimento imediato, no cuidado..”.

Não postulo um retorno a posições românticas e às correlatas perspectivas autoritárias e totalitárias: é a participação nesse espírito de confiança e aceitação mútuas das diferenças que pode vir a contribuir, a ter algum impacto positivo sobre o processo de transformação da sociedade”...

(Matos, M; 2000, p. 111, 154 e 155).

Logo, quanto mais todos (independentemente do sexo/gênero) possam “brincar-de-casinha e bonecas”, e quanto mais todos possam jogar mediando regras, e absorvendo a face sadia da competição (o que NÃO é sinônimo de rivalidade, de hierarquização, de exercício tirânico de poder), mais possibilidades de “reinventar os vínculos amorosos”, de “reinventar os vínculos sociais”, de “reinventar as aceitações mútuas das diferenças”, de “reinventar os laços de confiança”, poderão vir a surgir na maturidade, beneficiando homens, mulheres, crianças; beneficiando as relações no “macro” (vida pública) e no micro (vida íntima).

Em tempo: talvez o “destino de apuros” biblicamente mitológico que Carol Gilligan enxerga para as “herdeiras de Eva”, na citação dela que colocamos acima, se refira a uma suposta obrigação compulsória de serem submetidas a normas baseadas a partir do modelo-padrão (o masculino-patriarcal-patriarcalista), o que pode chegar a um ponto em que deixará de ser um “encargo pesado” ou uma “responsabilidade penosa”, para ser o exercício de ser literalmente tiranizadas (já que, a partir deste modelo bíblico, são compulsoriamente “seres-em-falta”, “seres errados”, “seres a ser mantidos excluídos”, “desviantes”, etc.).

O que raramente é assinalado, é que o mesmo acaba valendo também para homens, tiranizados por sua vez pela mesma “norma” de padrão comportamental, só que de uma forma ainda mais oculta, que lhes é exigida desde que nascem, no próprio “ar” que eles respiram, sem que percebam (lembremos os meninos da pesquisa canadense dos anos 90)...

Elas, movidas já há muito tempo por um projeto libertário que continua ativo, vêm se desviando da obediência a essa suposta norma (lembremos as meninas da pesquisa canadense dos anos 90)...

ELES NÃO!

Ainda não: ainda NEM se reuniram para debater a “norma” à qual estão igualmente tiranizados, iludidos por um suposto “PODER”: o “poder” de serem o padrão idealizado da norma, tornando-se repetidores robotizados dessas normas ancestrais, sem questioná-las.

Autofágico, este papel de ser o padrão ideal de norma, na verdade, os tiraniza e destrói, como já vimos nos textos anteriores (quem não leu, dê uma espiadinha, por favor, nos textos que se referem às masculinidades).

O contingente masculino ainda caminha pelo mundo sem grande consciência sobre essa norma oculta, (logo) ainda sem (novo) projeto próprio. Não lhe é permitido ainda - sequer - “jogar”, “brincar” com ele na infância.

REPITO o que lembro em vários textos: ainda não são Atores Sociais, conscientes de suas questões, críticos com relação a elas; não conquistaram ainda o “como” se tornar responsáveis pela avaliação dessas questões, e possíveis alterações de rota autonomamente escolhidas; não conquistaram se tornar AUTORES de si mesmos, de fato; seguem iludidos por um suposto poder que os aprisiona e mata.

Na medida em que hoje muitas meninas já “têm licença” para participação em jogos que eram até pouquíssimo tempo atrás “privilégio” de meninos, mas que pouquíssimos meninos “tenham licença” para jogos ditos “femininos” (brincar de boneca, por exemplo: como se se tornar empático, se tornar pai, ou se tornar um ser acolhedor-do-Outro no futuro não precisasse de “treinamento”!), as mudanças vêm devagar.

Aliás, meninos que “ensaiem” brincar com boneca, ou brincar-de-casinha, ou ainda que queiram fazer aula de balé, é um assunto (ainda!) tabu para a grande maioria dos pais, e - por isso - pouco debatido; só quem já trabalhou em Escolas sabe a resistência que as famílias têm com relação a essas experiências! A maioria das famílias aparenta um “temor” que seus meninos sejam ou “venham a se tornar” gays, a partir dessas experiências...

Como se a orientação sexual homossexual fosse...UM ERRO, UM MAL, UM DESVIO. Só que ela também acontece em alguns casos, embora não tenha NADA A HAVER com essa possibilidade de ter brincado com coisas ditas “femininas”.

Voltando a nossa pesquisadora-iluminadora: como dizíamos, Carol Gilligan levou adiante - entre os anos 60 e 70 - as pesquisas de gênero deflagradas por seu professor Laurence Kohlberg, que - desde os anos 50 - já desenvolvia pesquisas que envolviam gênero, ética, comunicação e educação.

Ela e seu corajoso mestre refazem seus trabalhos, associando a avaliação dos novos resultados inclusive aos avanços da psicologia e da psicanálise, referenciando - se para isso, por exemplo, a textos da psicanalista norte-americana Nancy Chodorow, que reescreveu brilhantemente questões referentes ao conflito edipiano.

Nancy Chodorow ressalta que a elaboração de cada etapa deste conflito, para as meninas, é mais fácil, pois elas tendem a (e são estimuladas à) valorizar a empatia, a intimidade, o acolhimento, etc., (logo, o caminho para “fazer as pazes com a mamãe” tende a ser mais ágil no caso delas), enquanto no universo dos meninos a pobreza (ou ausência) das informações e dos estímulos referentes à intimidade e afetividade impera (logo “fazer as pazes com papai” tende a ser, na verdade, muito mais complicado no caso deles).

Lembremos que até então a psicanálise colocava o processo de elaboração edípica das meninas como o “mais complicado”, o que “justificava a complicação” - supostamente - de ser mulher.

Ser mulher, (segundo a psicanálise tradicional, escorada na negação), deixava de ser simplesmente “ser diferente”, ou “ser-tão-complexo-quanto”, para ser no mínimo “desviante”, e na verdade “mais doente” ou - é claro - “pior”!

Assinala Carol, referenciando-se à avaliação da construção da ética nas meninas:

...”Escrevendo contra o preconceito masculino da teoria psicanalítica, Chodorow argumenta que a existência de diferenças de sexo nas experiências iniciais de individuação e relacionamento ‘não significa que as mulheres tenham fronteiras de ego mais fracas que os homens, ou que sejam mais propensas a psicoses’.

Pelo contrário, significa que ‘as meninas saem desse período com uma base para empatia inserida na sua definição primária do eu, de um modo como não acontece com os meninos’. Com isso, Chodorow substitui a definição negativa e derivativa da psicologia feminina de Freud por um enfoque positivo e direto:”... (Gilligan, C.; 1982, p. 18; negritos meus).

‘TADINHO DE FREUD! Que ninguém o “culpe” ou responsabilize!

Foi apenas um ser-de-seu-tempo! E, mesmo assim, fez MAIS do que a maioria envolvida com a história do Pensamento: nos transformou, nos expandiu irreversivelmente, ao nos presentear com nossos inconscientes; sua “cambalhota teórica” foi mais que suficientemente grandiosa para a humanidade!

Espantoso é o tempo que se levou para revisar essas minúcias de sua grandiosa e benfazeja cambalhota! Espantoso é o tempo que passamos repetindo falas e práticas feito papagaios ou macacos-de-imitação!...

Assim, ao contrário do que se alardeava nas teorizações anteriores, ser a “desviante” pode ser visto como encargo bem menos penoso que o encargo de ser “a norma, e/ou submetido a norma”, pois as supostas “desviantes” não foram privadas dos benefícios do exercício da empatia e do “cuidar” - como argumenta e reclama igualmente o psicanalista canadense Guy Corneau, especializado em masculinidades.

Destaca Guy Corneau: são “desviantes” com as características “cri - ativas” (e afirmativas) de usufruir não só o direito (ético e estético) de ser ou agir à “la donna é móbile”, como também o piedoso e confortante direito de amparar umas às outras...e a OUTROS; O Outro, com maiúscula.

Não há autor (nem eu) que seja estupidamente ingênuo, e afirme que basta nascer mulher para atingir alguma espécie de santidade; ou que não existam mulheres com construção moral torta! Aqui falamos do Ator social Mulher, e não necessariamente de indivíduos: por favor!

No mundo público a prova do benefício é vista - por exemplo - na construção das conquistas do que nos habituamos a chamar de “feminismo”, e dessa categoria “Ator Social Mulher” que elas ousaram, com seu próprio suor, desenvolver ao longo da história.

Com relação às famosas “marcas corporais” (nascer com um pênis / nascer com uma vagina) que inauguram não só:

1. A identificação sexual / de gênero de meninos-meninas-homens-mulheres;

2. mas também o “milk-shake” de significados que ainda na infância vão interferir não só na delegação (pelos adultos) de brinquedos e jogos, mas também nas avaliações do desempenho nesses jogos e com esses brinquedos (entre as próprias crianças, e dos adultos para as crianças)

, Marlise Matos acrescenta:

...”Ou seja, a primeira territorialização do corpo / sujeito, em boa parte das condições ocidentais e modernas, costuma ser feminizante não apenas no sentido de um ‘temor / ameaça’ invasivos / intrusivos, mas também em sentido positivo: interioridade, atenção ao outro, cuidado, reconhecimento / sensibilidade à fragilização, sensibilidade corporal, etc.”...

”A conseqüência desta situação é imediata: a identificação primária não precisa ser fálica, exclusionária, mas também vem marcada por uma experiência de feminidade positiva”... (Matos , M.; 2000, p.232 3 235).

Não compliquemos: basta que lembremos de cançonetas maliciosas infanto-juvenis (que ainda fazer certo sucesso em muitos lugares) como ...”Cu da mãe tem dente, morde o pau da gente”... e entenderemos PERFEITAMENTE o primeiro parágrafo de Marlise acima...

Felizmente nem toda a parafernália sexualizante (muitas vezes “torta”) que rodeia hoje em dia nossas crianças roubou delas a saudável e necessária curiosidade erótica; crianças ainda brincam de “mostre-o-seu-que-eu-mostro-o meu”, ou equivalentes a brincar de médico.

Felizmente muitas famílias já aprenderam a ouvir suas curiosidades eróticas sem colocá-las de castigo, sem corar, e respondendo com cuidado, dentro da compreensão de cada faixa etária em pauta.

Infelizmente muitas famílias colocam o boi empurrando a carroça mais rápido do que ela precisa, e decidem tomar a iniciativa de “ensinar as coisas da vida” com recursos inadequados, com a justificativa que pretendem ser pais modernos; inclusive, trabalhando em Escolas já nos anos 2000, ainda vi pais-homens que decidiam levar seus filhos-homens a prostitutas, como ritual imposto por eles de iniciação sexual...Nada contra prostitutas e sua profissão; tudo contra a "técnica" (?) invasiva; (já quanto a conversar sobre apaixonamentos, por exemplo, raros pais-homens o fazem).

Os leitores familiarizados com a leitura de textos psicanalíticos, psicoterapêuticos, com facilidade identificarão muitos autores que AINDA (!) se referem a coisas ditas “fálicas” como positivas; desconheço termos como “vaginálico” ou “vulvático”; muito menos seu uso com sentido afirmativo, positivo, construtivo; jamais com relação a homens.

Ao contrário, “mulheres fálicas” são tidas como perigosíssimas! Perdoem-me, mas não podia perder a piada; um dia escrevo à sério, e mais, sobre isso.

É a tudo isso que nossos meninos e meninas, seus brinquedos e jogos, sua construção de suas ética e estética, AINDA (!) estão expostos.

No entanto, parece que as meninas estão com uma pequena vantagem...

Por que seu equivalente entre o contingente masculino não ocorreu?

Porque a maioria das mães felizmente “desobedeceu”?

Porque a maioria dos pais-homens perpetua o obediente silêncio omisso de seus próprios pais-homens com relação a questões de intimidade?

Como seria equivocado tomar a frente de uma resposta que cabe ao contingente masculino, e muito pobre respondê - lo “rápida”, fácil e/ou irresponsavelmente, deixamos - mais uma vez - esse quesito no ar.

Aliás, sobre os homens (e os psicólogos da geração anterior à Nancy Chodorow), diz Carol Gilligan:

”Preferindo como Virgílio, ‘cantar as armas e os varões’, os (próprios!) psicólogos ao definir a idade adulta focalizaram o eu e o trabalho.

Embora o apogeu da separação na adolescência se presuma ser seguido na idade adulta pelo retorno do apego e do cuidado, recentes figurações do desenvolvimento adulto, em seu surgimento inconsútil dos estudos de homens, oferecem escassa iluminação de uma vida passada em relacionamentos íntimos e procriativos”... (Gilligan, C.; 1982 , p.163; negritos e parênteses sem itálico meus).

Felizmente sou contemporânea de Nancy Chodorow, Carol Gilligan, Guy Corneau, Marlise Matos, Walter Boechat, Bernardo Jablonski...

Felizmente já era “fã” dos desobedientes Lou Andreas Salomé, Sándor Ferenczi, W. Ronald Fairbairn...

Todos nós somos “netos” de Freud; e daí? Amar o avô não implica em ter de obedecê-lo cegamente! Todo avô que ama os netos prefere vê-los desenvolver o senso crítico!

Questões de ÉTICA : Justiça e Lei nem sempre andam de mãos dadas! Mulheres o reconheceram sem hipocrisias mais frequentemente!; e de “estilística existencial”: logo, questões também de ESTÉTICA.
Em tempo:
Que músicas seus filhos andam ouvindo? A que obras de Arte têm sido levados? A que espetáculos eles andam assistindo? Que espécie de estímulos estéticos eles têm recebido? Não esqueça : onde anda o BELO, anda a construção da noção de "BEM" e "MAL"...
Ninguém vai ficar "bonzinho" por ter tido a sorte de ser levado a contemplar Matisse; mas que terá a sorte de - com esse momento - ganhar capacidade reflexiva, quanto a isso NÃO HÁ DÚVIDA!

ILUSTRAÇÃO : NELSON LEIRNER, 1973

5 comentários:

ruyter disse...

Deus é homem ou mulher? Ou os dois?
Deus é uma entidade ou um energia? Deus construiu o universo e o planeta terra e parou? Ele é só platéia, ou ainda interfere com as coisas que o homem faz, construindo ou destruindo, já que lhe dotou de livre arbítrio?

Gláucio disse...

Oba já tõ curioso com este tópico.
Gláucio Gomes

Elizabeth disse...

Parabéns pelo blog Cris. Li suas opiniões, opiniões de outros, concordei, não concordei. Afinal, são opiniões, mas somos livres para achar, não é mesmo? O livre-pensar é um direito nosso e é, juntamente com o exercício do pensamento alheio, que chegamos a conclusões inimagináveis e, muitas vezes, fantásticas também. Um beijo!

Elizabeth disse...
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dan disse...

Lendo tudo isso, me vêm imagens sobre a rivalidade entre meninos e meninas. Uma separação cruelmente exposta nos programas infantis como os de "xuxas", onde as equipes eram compostas com pipis de um lado e pererecas noutro.(salvo o LUPU LIMPIM)
O homem erra ao estar preocupado em acertar.
Enquanto a mulher vai lá, estuda o obstáculo e pimba! Chega na frente.
Bendita hora em que as mocinhas resolveram começar a aparecer com suas tesouras, pra cortar muitos topetes e bigodões por aí.
(tô tentando manter minha barba feita e, PRINCIPALMENTE, meu topete abaixado. quero sobreviver entre vocês, Dianas).