sábado, 30 de agosto de 2008

ANTIGOS GUARDIÕES DE MUITAS IDENTIDADES


HIPÓTESES INFORMAIS SOBRE POSSÍVEL EVOLUÇÃO DA TRADIÇÃO DO
“LIVRO DAS SOMBRAS” NO UNIVERSO DAS COMUNICAÇÕES.

I - INTRODUÇÃO:

Há uns vinte anos atrás, desenvolvi (sem ter publicado) uma pesquisa sobre o folhetim (inevitavelmente o melodrama pegava ali uma “carona”).

Em tempo: obrigada Flora Sussekind pela pilha de textos cedidos, e obrigada Gloria Perez pela aula gratuita (dada sentada no chão de minha casa de alguns anos atrás!), pois suas colaborações, além de generosas e preciosas, foram/são inesquecíveis pelo contexto em que estiveram contidas.

Aqui, mais de vinte anos passados, serão mais uma vez, mesmo que tangencialmente, utilíssimas.

Já para minha pesquisa de 2002 sobre Identidade Masculina em processo de publicação (“Homem ainda não existe”), entrevistei (para averiguar um possível diferencial comportamental desta amostra) homens que escolheram o (neo?) paganismo (religiosidade de muitas faces, mas popularizada/generalizada hoje como Wicca, que significaria sabedoria) nas suas experiências quanto à religiosidade, o que me familiarizou bastante com este universo.

Um dos assuntos que dele emergiram, e especialmente me “encantou”, foi a remotíssima tradição da prática chamada de “O Livro das Sombras”. Deixo sua definição a cargo de uma especialista (tanto em paganismo quanto em literatura), a Professora de Literatura inglesa, Rae Beth, traduzida no Brasil pela escritora Marcia Frazão:

"...Este livro de referências é conhecido pelas bruxas como ‘O Livro das Sombras’. É um cabedal particular de conhecimento e experiência. Qualquer coisa útil pode ser registrada: um remédio de ervas para a dor de garganta, a descrição de um transe ou sonho, um modo prático de quebrar elos, feitiços amorosos, feitiços para curar, enfim, qualquer coisa. Escolham um caderno, o mais forte possível. Talvez fique muito velho antes de preenchê-lo, pois ele pode ser usado como referência permanente.
A cor tradicional para a capa do livro é preta, cor que indica segredo. Não deve ser mostrado a ninguém, exceto a outro bruxo ou bruxa. Se não encontrarem um caderno preto, ou se preferirem outra cor, tudo bem, escolham a cor que mais lhe agrade. Já tive vários de cor preta, mas o atual é marrom. Já possuí vermelhos e azuis. Como vêem, uso-os bastante, pois os meus se repetem por serem diários mágicos.
De qualquer forma, não importa a cor ou o tamanho, mas que o seu uso nos faça sentir bem.
Não sei de onde surgiu o nome ‘Livro das Sombras’, mas creio em duas possibilidades. Uma se relaciona a trabalhos feitos nas sombras; isto é, secretamente, à luz de velas. A outra pode ser o reconhecimento do fato de a descrição de um feitiço ou invocação ser sempre a sombra da coisa real...”(pág.62 e 63; “A Bruxa Solitária – Lições a aprendizes de Bruxaria”; Bertrand Brasil, 1997).


Sabe-se que faz parte da tradição passá-la (passando os próprios livros) adiante, para as gerações seguintes, como sabedoria a herdar, mas que muitos destes livros - enquanto durou a criminosa Inquisição - foram sábia, prudente e infelizmente queimados (por precaução, antes que seus donos também o fossem!). Sua versão tradição oral – claro – se manteve.

Como não fantasiar que o escritor e roteirista Ray Bradbury tenha se inspirado (também) nesta histórica necessidade circunstancial, propondo reparar uma hipotética e futura situação semelhante (pela retomada da tradição oral como protetora dos “saberes”), ao escrever “Farenheit 451”, que acabou popularizado através do sucesso que fez em sua versão cinematográfica?...

“Bruxos”, os “Outros-Infernais” sartreanos, “Estranhos” que se deve supostamente “manter à distância” (os sem-lugar dos “campos de refugiados”, ou os ”semi-invisíveis” de nossas ruas, por exemplo), sempre existem; só mudam os seus “crachás” ou a “madeira” que usamos para suas respectivas “fogueiras”, como temos visto em tantos textos...

Mesmo assim...

...muitos medicamentos, cosméticos e perfumes foram de fato, graças a estes livros, tanto descobertos quanto desenvolvidos e perpetuados, assim como uma infinita lista de curiosidades inspiradoras, frequentemente conhecidas como “sabedoria popular”, com utilidades diversas na intimidade humana (quanto à manutenção da higiene corporal, doméstica, e/ou mental, por exemplo).

Para os pagãos, comida, bebida, sexo, podem ser úteis e eficazes como poderosos instrumentos “mágicos”.
Se são considerados “mágicos”, ou - melhor ainda - “sagrados”, é também graças ao prazer que podem proporcionar.
Entre os pagãos e neo pagãos, alegrias sensuais (quando autônomas e consentidas) não só não são “pecados”, como frequentemente são descritos por muitos deles como “virtudes íntimas”. Houve um tempo, afinal, em que o que chamamos hoje de “prostitutas” eram chamadas “sacerdotisas”, e reverenciadas como tal.

Assim, “eróticas” mas não necessariamente “sexuais” receitas (das culinárias a diversas outras) também fazem parte da tradição mantida por estes livros e sua perpetuada sabedoria.

Nas propostas de rituais e invocações, nas receitas de “poções” para encantamento e magia, e especialmente nos relatos de sonhos e transes registrados em inúmeros livros das sombras, há fundamentos de reflexões e de pesquisa da intimidade, da vida íntima da humanidade.

Desde aquela mais prosaica (relatos do o dia a dia), à maior das intimidades: a da singular (e chegada à longos solilóquios) subjetividade humana (sexualidade incluída, é claro), e de todos os benefícios do exercício da introspecção (ou intralocução), tratados como coisas sagradas, e valorizadas “avant la lettre”; bem antes de chegarmos numa tal “pós-modernidade” incensada como especialmente “reflexiva”.

Há muitas reflexões, aliás, que gostaria de compartilhar sobre o assunto. Esperando um dia desenvolvê-las ainda melhor, inauguro aqui essa experiência, levantando tópicos de fenômenos culturais/comportamentais, pescados do extenso universo de nossas Comunicações, que suponho possam ter não só colaborado, no passado, na construção da prática do que veio depois a se chamar O SAGRADO “Livro das Sombras”, mas talvez se mantendo vivos, perpetuando essa mesma construção sob outras formas, inclusive em pleno e já DESENCANTADO século XXI.

Claro que, para isso, já não me refiro mais aqui apenas aos neo pagãos - cujo número não pára de crescer - e seus rituais.

Refiro-me a certas práticas, ou hábitos sociais cotidianos de comunicação em sua evolução, que se adaptaram de tal forma ao “andar da carruagem” do mundo, que quaisquer cidadãos, adeptos das mais diversas religiosidades, agnósticos e/ou ateus, poderão admitir tê-los presentes em suas vidas.

Não tenho aqui a pretensão de tecer um “profundo” ou “completo” mapa “histórico” ou “antropológico” do assunto; apenas compartilho reflexões, que têm nascido “NAS SOMBRAS”, para que LUZES de novas idéias apareçam e brilhem ainda mais.

II - DESENVOLVIMENTO:

A - Em 22 de fevereiro de 2006 a Revista “Nature” (ou www.nature.com) publicou textos de especialistas que provam de que a ocupação da Europa se deu no mínimo 5.000 anos antes do que se calculava até então, o que incluía – por exemplo – a “idade” do registro das belíssimas pinturas rupestres de Chauvet, por exemplo.
Estas pinturas - (lindamente) elaboradas nas sombras labirínticas das cavernas e do tempo – contam histórias, e sempre foram associadas a ritos que visariam “(re)compor e domar as coisas, fazendo-o primeiro com a sombra das coisas”...

Porque não chamá-las também de “Livros”?

Afinal, eram os “livros plausíveis” naquele momento.
Aliás, continuamos a “lê-los” com o prazer que a estética proporciona, “estudando-os” e obtendo novas respostas deles, e - graças à sabedoria que não pára de emanar deles – nos mantemos “encantados”, a reverenciá-los...

B – Diários ora íntimos, ora públicos, mesmo que entrelaçados com a criativa fantasia humana acompanham o ser humano desde muito cedo.

A primeira “aventura” relatada escrita em tabuinhas de cerâmica é suméria; é a de Innanna, a heroína divina com “ares” ora de Coré/Perséfone, ora de Jesus, (com direito à Luz da ressurreição, após descida aos sombrios infernos), que generosamente compartilha seus reveses e sucessos com um mortal e plebeu namorado, pastor.

A segunda, também em tabuinhas e suméria, conta a história do nobre (mas não mais divino) mortal aculturado Gilgamesh, às voltas ainda com os deuses, mas também com um alter-ego antes vinculado à Natureza que à cultura (a curiosa personagem Enkidu).

Existem livros contemporâneos que contém essas aventuras; recomendo-as!...

Já os Faraós deixaram seu dia a dia impresso nas paredes, ora de palácios, ora de templos, ora de seus túmulos piramidais.

Mas os túmulos de operários recentemente encontrados nos arredores do Cairo
continham pequenas esculturas que cumpriam a mesma tarefa em relação à outra camada da população daquele momento: “relatavam”, através de sua modesta (mas não menos bela) “escrita escultural” o dia a dia destes; foram confeccionadas às escondidas, muito provavelmente à sombra de tochas acesas no curto momento de seu repouso, à sombra do fausto da “escrita” dos faraônicos patrões; assim deixaram para nós o seus diários populares...

A psicanalista Halina Grimberg, numa palestra, assinalou que a humanidade só pode ter acesso à história da intimidade (e que maiúscula História temos também aí!) graças às mulheres e seus relatos, oral e familiarmente repassados adiante; muitos se limitam a apelidar o inesgotável rol desses relatos de “fofoca”.

Não só os talentos empático e verbal, ditos prioritariamente femininos, têm se mostrado “campeões”, mas também as atividades reservadas a elas o têm favorecido, inclusive na postura corporal que exigem: plantar, colher e armazenar em grupo (na grande maioria das vezes em grupos circulares); mais tarde, tecer na roca, em grupos também reunidos em círculo etc., reproduzindo uma forma grupal esférica (cujo centro acolhia suas crianças), e usufruindo a comunicabilidade face a face, como observou a antropóloga Helen Fisher (ao contrário da maioria dos homens, que - para caçar - precisavam passar um bom tempo lado à lado, de olho na caça, em postura bem semelhante àquela em que ainda os vemos hoje, ora nos estádios de futebol, ora nas guerras).

Curiosamente torna-se compulsório lembrar que formas circulares (ou antes esféricas) são bastante familiares (logo especialmente “confortáveis”) ao contingente feminino, com suas igualmente bojudas barrigas e seios...

Segundo Halina, a dita “fofoca feminina” se encarregou de guardar esse precioso semi-secreto relato, sem o qual toda a “sombra” do convívio humano deixaria de ser conhecido. O que acontecia na vida pública estava à luz.

Quem ousaria dizer que o convívio humano acontecido à sombra seria menos importante que o “mais iluminado” deles?

Para o relato do lado público “iluminado” havia não só os historiadores, mas todos os demais relatos dados como “oficiais”.

Nossa sorte talvez tenha sido a existência também dos poetas que, à sua maneira, tateavam transitar “entre os mundos”: luz/sombra, íntimo/público, na medida em que o olhar poético sempre rompe as fronteiras exigidas pela realidade, ou pelo “oficial”, mesmo quando deles tenta tratar...

C – Além dos diários propriamente ditos (mesmo que às vezes sob formas diversas do mero relato escrito menos “pessoal”), a literatura (o que aqui inclui tudo o que o ser humano pôde escrever) se encarregou de desenvolver a “descrição perpetuável” de sombrios “segredos” de outros tempos e lugares.

Tanto, que a Revolução Francesa se apoderou do poder que o melodrama começava a insinuar, para se articular e se realimentar.

O folhetim tem esse nome pois, capítulos de historietas populares (acrescidas no verso de outras informações políticas, que interessavam a quem as imprimia), eram impressos em pequenas folhas soltas, distribuídas nas ruas, cujo objetivo maior era a sedução para o trânsito popular da comunicação sobre os interesses revolucionários a divulgar naquele momento.

A revolução deu no que deu, como outras, posteriores.

Aquelas folhas se tornaram a matriz do folhetim, que mantemos ainda em nossos dias, nas novelas, séries, “sitcons”, e mesmo nas páginas jornalísticas (das policiais às políticas) que tantos acompanham, como se fossem (e às vezes são) capítulos melodramáticos a desvelar sombrios segredos surpreendentes...

Mesmo a continuidade de algumas tiras de humor vão nos enfeitiçando diariamente, sendo assimiladas da mesma forma a estes nossos rituais; alguns leitores se identificam com umas, outros com outras; o ritual é o mesmo.

Muito antes da filósofa Marcia Tiburi dizer que compartilha esse hábito comigo, eu também já não sabia “começar o dia” sem verificar a “tira do dia”de os PIRATAS DO TIETÊ, do poeta das “tiras”, Laerte, na Folha de São Paulo...

Todos esses recursos contemporâneos acima descritos desvelam ritualisticamente tantos segredos, que já ficou claro (como na Revolução Francesa) que o objetivo maior é o que está entrelinhas ou “entre as historinhas”: o que acontece em nossos dias, na manipulação do Mercado (e às vezes do Estado) imposta pelos “intervalos comerciais” explorados pela Publicidade entre cada segmento de cada programa que de fato decidimos assistir, em cada milímetro de cada jornal, etc...

Cabe aos enredos, às “historinhas” (inclusive os contidos TAMBÉM pelos próprios “reclames” ou “comerciais”) o “feitiço”, o “encantamento”.

Mesmo o Terceiro Setor e seus simpatizantes têm também, de alguns anos para cá, tirado partido do poder de adesão social em potência ali, divulgando - através de autores de nossos Folhetins – suas campanhas educativas, de saúde, sociais, etc. ali “embutidas”, o que exibe uma permeabilidade criativa capaz de encher qualquer cidadão de renovado otimismo.

Não podemos esquecer o poder de interferência da “opinião pública” no que acontece ou não na mídia: mais um ponto frequentemente a favor de um olhar otimista (é POSSÍVEL interferir, “ajudar a apagar incêndios”, mesmo que com as famosas “gotinhas do beija-flor”!).

Deixo o maior ou mais severo segmento crítico possível de tudo isso para outro momento, mas – inegavelmente – melodrama e folhetim (em todas essas suas novas expressões) contam histórias da vida íntima (incluídas suas caricaturas, incluídos seus momentos patéticos), das mais prosaicas “sombras cotidianas” (acompanhando, é claro, as características de cada momento, lugar e cultura).

Histórias e personagens idealizados?
Mas o fenômeno da idealização, e os plausíveis processos de desencantamento/desidealização são elaborações que ocorrem no nosso humano universo íntimo!
Identificam um universo íntimo!

Seu sucesso e manutenção são frequentemente a isso associados: a facilidade com que um volume imenso de pessoas são cativadas, “encantadas” por “se identificar” com aquilo.

As crianças necessitam dos contos de fadas; adultas, buscam novos recursos de elaboração!

Não esqueçamos a principal característica do Folhetim propriamente dito: ele é uma “obra aberta”, isto é, seus autores desenvolvem os capítulos a partir do que ouvem falar sobre a reação de seu público, que é “chamado a” interferir; chamado à co-autoria.

Logo, ele é claramente “interativo” (com sucesso) desde a Revolução Francesa!...

D – Destes simulacros de diários (melodramas folhetinescos articulados ao universo da comunicação por paralelos interesses políticos, econômicos e sociais), emergiu um segmento especialmente familiar ao universo feminino da geração que veio a “fundar” o chamado “feminismo”, ou - como prefiro – familiar aos “homens e mulheres modernos que ‘fundaram’ os debates sobre as questões de gênero”...

Simone de Beauvoir me deu o prazer de descrever num dos seus próprios (depois literários) relatos pessoais, que “compartilhou comigo” (e milhares de outras e outros) a leitura atenta não só de muitos volumes da (conhecida no Brasil como) “Biblioteca das Moças”...
Esta coleção trouxe para nós livros de alta qualidade em seu estilo, tanto da obra da Condessa de Ségur ou de “M. Dely”, quanto de Mark Twain - e também as magníficas obras completas de Louise May Alcott.

No Brasil, a mineira Alice Caldeira Brant, sob o pseudônimo “Helena Morley”, relatou com imenso sucesso, para o Brasil e para o mundo, num diário literariamente tratado, seu cotidiano de adolescente no final do século XIX. Ainda aqui, a Lobatiana "Emília" registrou num dos volumes de "O Sítio..." suas "Memórias"...

Laura Ingalls Wilder contribuiu (também nos USA) com sua experiência pessoal; muito lida até hoje, felizmente.

Não nos prendamos aqui a especular a história das sufragistas ou de quanto tempo as mulheres demoraram a conquistar o direito aos estudos, tão pleiteado pelas personagens destes autores; não é nosso assunto imediato. Mas é nosso assunto a freqüência com que “diários” (que se aproximavam ora mais, ora menos da “realidade”) íntimos, tornados públicos, mobilizaram multidões à reflexão de seus comportamentos, a ponto de semear concretíssimas rupturas e modernidades; desse fenômeno, estes “diários” acima são um exemplo eloqüentemente poderoso.

“M. Dely” era, (significativamente) na verdade, o nome artístico de uma dupla de irmãos, uma moça e um rapaz: masculino e feminino unidos, construindo sucessos e reflexões, decisão que tomaram depois de uma guerra que alterou compltamente (na vida real, mas como nos seus melhores melodramas folhetinescos) suas vidas. A elaboração literária a quatro mãos de seus ideais infanto-juvenis, desencantamentos e lutos foi um ritual que “deu samba” para ambos, e para seus bilhares de leitores!

Logo, além de deixarem verdadeiros “ritos de passagens” de vários momentos importantes da história da intimidade descritos para a posteridade, eles “davam espaço à fala de “coisas que aconteciam, ou poderiam acontecer, dentro”: de indivíduos, de lares, das relações, da sociedade, embora - ritualisticamente - se utilizassem, como de praxe, para isso, de personagens romanticamente idealizados ao máximo; repito a pergunta: um dos “ingredientes” que acompanha o eterno ritual da evolução de nossas elaborações cotidianas, não é exatamente a elaboração de nossas idealizações na direção de desencantamentos e reconstruções?

E – Quanto teríamos a falar do tempo do folhetim radiofônico! (No Brasil acompanhado das revistas folhetinescas no estilo “Revista do Rádio”)... Por mera economia, “pulemos” para as TVs. Como no rádio, nas TVs o “ar” folhetinesco foi emprestado tanto à comédia (“Balança, mas não cai”) quanto ao drama (“O Direito de nascer").

Sua versão na comédia deixo para depois.

Na área do drama, se as séries televisivas (aqui, por exemplo) “Papai Sabe Tudo”, “I love Lucy”, “Os Waltons”, ou os brasileiros “Alô Doçura”, a primeira versão de “A Grande Família”, e “Malu Mulher”, se encarregaram de desenvolver à sua maneira, na cultura de massa nos anos 50 / 60 /70, a continuação (um “segundo capítulo”) das mesmas coisas que a Condessa de Ségur e Louise May Alcott haviam despertado no século XIX, arriscamo-nos a dizer que (por exemplo) a série norte americana “Related” é um dos muitos “Mulherzinhas” contemporâneos (sucesso de Louise May Alcott) onde foi a mãe quem morreu primeiro, e que a série idem “Sex in the City” é um dos “Os desastres de Sofia” (sucesso da Condessa de Ségur) pós-modernos, frutos da mesma indústria cultural.
Nosso “A Grande Família” foi também polido pelo tempo, e voltou com renovado sucesso, aliás.

O papel ritual da “confidência-de-mentirinha-que-faz-com-que-o-leitor-se-identifique” é ali cumprido, e a audiência mundial deste tipo de programas o comprova.
Mal ou bem, continuam a “brincar de” registrar “coisas que acontecem dentro”.

O cinema, especialmente nas comédias românticas, aproveitou o que aprendeu tanto no drama como na comédia desenvolvidas no rádio e nas TVs: com a mesma ansiedade que aguardávamos “o que ia acontecer na próxima vez (no próximo filme) com Doris Day e Rock Hudson? (ou com Eliana e Cyl Farney)”, muitos hoje aguardam “o que vai acontecer na próxima vez”...com os “bonitinhos da moda”...

Quantas vezes já ouvimos alguém comparando a “sala escura” com um templo?... Nem me darei o trabalho de repeti-lo; (repetições? Só as ritualísticas!...).

Na comédia, o “cumprimento do ritual” pode ser encontrado não só nos “quadros”, onde personagens recorrentes passam por situações semelhantes (enquanto o público acompanha ansioso “o que vai acontecer com aquelas personagens na próxima vez”), mas também na repetição dos “bordões” (de: “Aceita um croquete, Sr. Jacinto?” de Consuelo Leandro, “O que é a natureza!” de Zé Trindade, “O perigote das mulheres!” de Jorge Loredo ou “Zé Bonitinho”, ao “Tô Pagâno!” de “Lady K”, o mais recente que está no ar, e é repetido a todo momento pelas ruas).

Com caráter (por que não?) sagrado, os bordões de sucesso são repetidos como “mantras de chamar o riso”...

Lembro (e lembrarei SEMPRE que tiver a oportunidade) o que me ensinou Camila Amado:

“...A Tragédia é grandiosa, porque contém os mesmos temas que a própria Filosofia em pessoa; o Drama, é só aquela nossa bobagem do dia a dia; já a Comédia, é o maior de todos, pois contém tudo que a Tragédia traz, acrescida da infinita sabedoria do humor!...”

F - Mas a cultura de massa parece ter desenvolvido, ainda na literatura, um outro “filho geneticamente modificado” desse mesmo Livro das Sombras, que parece investir com fúria na sedução das humanas fantasias de idealização: os “Manuais-Para-Atingir (supostamente)-O-Sucesso”. Tudo pode ter sua face per-vertida, afinal...

Notemos que os menos preocupados com o “sucesso”, e que por isso são os (de fato) mais próximos dos tradicionais Livros das Sombras, pois despertam uma simpatia mais consistente em aceitação, e o tempo (como sempre?) o prova: “best-sellers” de receitas culinárias (“O Livro da Dona Benta” por exemplo), livros de receitas de (alquímicos?) “Segredos Domésticos” (“Sebastiana Quebra-Galho” por exemplo).

O sucesso dos mais preocupados com o próprio sucesso vende muito, mas nem todos por tanto tempo assim: manuais de supostos comportamentos “padrão-de-excelência” (“Como fazer isso-ou-aquilo magnificamente bem”) e - me perdoem os adeptos – os perniciosos manuais de auto(?)-ajuda(?)...

Há (até!) muitos manuais especificamente sexuais, e o mais curioso sobre estes é a amplitude temática que conquistaram gradual e paralelamente às mudanças culturais. No início do século XX dedicavam-se supostamente a informar sobre diferenças anatômicas e concepção; foram se tornando “mais ousados” ao começar timidamente a falar de prazer, até chegar recentemente a coisas do tipo “Duzentas-coisas-que-um-homem-pode-fazer-na-cama-para-dar-prazer-a-uma-mulher”, com sua versão “Trezentas-coisas-que-uma-mulher-pode-fazer-na-cama-para-dar-prazer-a-um-homem”, cujas versões “homo-bi-trans” já devem estar no prelo, é claro; (“Quinhentas-coisas...?”)...

G – TVs renovando suas tecnologias, e Internet, trouxeram outras formas para a “magia” culinária (somadas às domésticas e as sexuais) que igualmente se popularizaram entre a massa.

Os televisivos “Chefs” (um grande número de homens aí – re? - aparece), Marta Stuart e suas seguidoras, e atletas (algumas explicitamente sexuais, outras não) se multiplicam das telinhas às telonas; só depende do horário...

Imprensa escrita, rádios, cinema, revistas já não bastam; não incluem o movimento (simulacro do real) e a resposta imediata que as múltiplas telas compartilham (celulares, computadores, etc.).

Quem sabe isso indique o quanto nos tornamos “anoréxicos” da capacidade de fantasiar, o que seria lamentável...

H – Os novos recursos da comunicação chamam a atenção para outra particularidade.

Aquela geração que fundou o debate das questões de gênero manteve o cultivo da prática da redação dos “Diários”; ao menos quanto o contingente feminino isso é facilmente auto-evidente, embora não possamos esquecer que Henry Miller fez um belo “pendent” com Anaïs Nin...

Alguns deles foram assim mesmo editados, enquanto outros foram um pouco “melhor filtrados” antes de virar literatura, TV, ou cinema, da qual “a-qualidade-de-uns, e-de-outros-não”, não está em jogo aqui.

A quantos livros de memórias com “debate de gênero” você já teve acesso?... Quantos tinham real qualidade?

Ainda hoje se fala deles, através das “novas heroínas”, ainda apegadas de alguma maneira aos seus diários: a impagável Isadora Zelda da grande escritora Erica Jong, a Carry do televisivo Sex in the City, a quase dejá vu” “Bridget Jones”, etc.

A geração que viu rapazes e moças buscar recuperar a qualidade de boa parte de seu convívio, tornando suas intimidades uma maiúscula Questão, criou uma espécie de “diário coletivo”. Além dos autênticos e pessoais diários (mostrados aos considerados de maior confiança), os (agora ultrapassados?) cadernos ora de “perguntas indiscretas”, ora de “recordações”, onde - quanto mais próximo ao dono - mais e mais vezes se escrevia ali grandes intimidades que se ousava tornar razoavelmente
públicas.

As gerações mais recentes substituíram a redação de diários, a resposta a cadernos de perguntas indiscretas e participação em cadernos-de-recordações, pela confidência (ainda íntima, mas às vezes compartilhada como nos cadernos) em suas agendas.

De mero material escolar transformaram-se em depósitos de múltiplas intimidades (às vezes também coletiva); agora também em versões digitais.

Muitas pessoas já em (jovem) idade adulta não conseguem (compreensivelmente) se desfazer de sua coleção de agendas, na medida em que o relato de muitos anos de suas vidas ali está contido (e até das vidas de pessoas queridas), muitas vezes em forma cifrada, muitas vezes em forma de colagens, com textos, desenhos, fotografias: elaborativos rituais de passagem, igual e devidamente registrados para a posteridade.

I - Outro hábito (rito de passagem típico do período adolescência/juventude) que resiste ao tempo e denuncia temores humanos, é o recorrente brincar de “dominar a sombra da coisa para supostamente dominar a coisa”, em sua versão “fora das cavernas”.

É o colecionamento de bonecos, fotos de artistas, atletas, etc., seja de belas pessoas nuas, seja de figurinhas para álbum com essas mesmas pessoas, e/ ou com super heróis que idealizam ainda mais aspectos idealizados/desejados do humano; as coleções se multiplicam, entupindo mochilas, gavetas, armários, quartos inteiros...

Qual Aprendizes de Feiticeiros em treinamento, (como Mickey no desenho “Fantasia”), nossas crianças, púberes e nossa juventude continuam tentando – sempre meio confusas
- fazer alguma mágica com “vassouras ideais ou idealizadas” que parecem “multiplicadas à revelia” ao seu redor, até chegarem os desencantamentos.

Nem que seja para (mais tarde) “varrer” suas jovens ingenuidades e idealizações infanto-juvenis para o passado, e “voar” para sua possibilidade de novas aprendizagens.

Os Blogs modernizaram e “adiantaram o serviço” e são públicos por natureza, assim como outras páginas da Internet, Orkut e similares: relatam e colecionam ao mesmo tempo!

Mas o propósito (e a necessidade) do registro dos ritos de passagem (próprio e alheios) parece ser o mesmo, guardadas as devidas diferenças de geração, cultura, possibilidades vocabular e imagética, circunstancial possibilidade de distinguir o ideal do plausível real, etc.

OBS. : Claro que a sociedade/cultura de massa gerou na verdade o que poderíamos chamar agora de “O Livro das Sobras”, tamanho o volume do lixo puro que encontramos nas comunicações, em especial no frequentemente fraudulento e manipulador universo virtual - o que também está fora de nosso foco, aqui.

Mas, para muitos poetas de boa qualidade em franca germinação (por exemplo), é o único recurso financeiramente plausível para expor suas embelezadas subjetividade e propostas de novas rupturas, e a humanidade deveria lhes agradecer por esse generoso compartilhamento.

Como os Livros das Sombras, alguma coisa desse material vai se perpetuar, sendo
passado adiante para as próximas gerações, e muita coisa vai ser perdida por motivos diversos; não mais por inquisições fundamentalistas, espera-se!...

O RITUAL continuará humano...e desencantado.

III – CONCLUSÕES:

Quando os Livros das Sombras ganharam este nome em religiosidades filhas da Natureza em pessoa, honravam a sacralidade da própria Vida: honravam a Sombra e sua capacidade de guardar (para também exibir) a beleza da Luz.

Tanto a experiência da introspecção (intralocução), como a pesquisa em busca de novos conhecimentos, e as relações entre as pessoas próximas eram assumidamente Sagradas.

Daí a sacralidade do seu registro.

Muitos daqueles que o adotam/perpetuam, em plena (pós?) modernidade, tentam recuperar esse “honrar a Vida”, esse “honrar o Ser”, esse “honrar a Sombra para melhor honrar a Luz”, já que “intralocução”, “sacralidade” e “honra” não deveriam depender de práticas religiosas (particularmente, creio que quanto mai longe delas estiverem, mais produtivas serão...) .

Daí a opção de não citar aqui “esoterismos contemporâneos” ou os “Movimentos” pelo Meio Ambiente, pela Ecologia Reflexiva, etc. Sua emergência já é suficientemente eloqüente e auto-evidente.

Como tentei lembrar através dos tópicos acima, o registro do que pertencia ao “dentro”, ao “cumprimento de ritos privados” se manteve, se mantém.

Muito da “perpetuação disso como valiosa herança” se manteve; mas o sentido de “valor da intralocução”, “sacralidade” ou de “honra” de tudo isso, nem sempre.

Chegamos a um curioso paradoxo: sem uma coisa a outra talvez não acontecesse.
Isto é, se não tivesse sido gerada uma “fome” tão grande de intralocução, de sacralidade (e - quem sabe - de honra), seus “retornos” talvez ficassem sem semente!

Mas...

...além da sacralidade “em pessoa”, era também honrada a Sabedoria; esta era um Valor maiúsculo, por isso igualmente sagrada.

Para os pessimistas, as comunicações refletem uma decadência generalizada da ação humana, da ética, da estética, da sabedoria em qualquer de suas facetas.
Para estes, nos relatos contemporâneos e tecnológicos de “sombras”, são os aspectos e os episódios fraudulentos, manipulativos, e absolutamente superficiais sem qualidade que estão à frente e são privilegiados; guardariam apenas estéreis e doentias repetições .

Porém, esta mesma possibilidade de comunicação poderosa traz a possibilidade do compartilhamento das novas “fomes”.

E é a “fome” que deflagra a “receita” e a “dieta”.

Para “fome de saber”, “Sabedoria” seria “um prato cheio”, por exemplo.

Otimistas continuam crendo que seres esfomeados de sabedoria-não-fraudulenta ainda existam...

Quem pensa em “Vida”, pensa em “ciclos”; em possibilidade de (eterno?) retorno.

Faço parte da “torcida organizada” pela possibilidade de “desencantamento do mundo” ritualística, que – paradoxalmente - dê realce a um (re?) “encantamento” pela sabedoria.

Sabedoria? Impossível “alcançá-la”.

Plausível tecê-la, ritualisticamente “para dentro” e “para fora”.

O que já foi idealizada Utopia, hoje é desencantada Plausibilidade, e a clareza dessa resignada limitação não precisa parecer “armagedônica”, ilustres pessimistas!

Ao contrário, pode significar uma preciosa consistência e (por que não?) uma consistência mais divertida em sua qualidade enigmática e provocadora, já que o humor provou em muitos momentos (não só no “terremoto” provocado pelos recentes cartoons dinamarqueses que brincavam com Maomé!) seu poder subversivo, revolucionário, “encantador”, renovador, transformador, e até “curotrófico”.

As comunicações trouxeram a “Rede”; cada qual que colabore como puder (e se quiser) para a qualidade desse plausível “tricôt alquímico” que temos pela frente, “para dentro” e “para fora” de nós.

Já nos desencantamos da Magia.

Já da Plausibilidade de certas Alquimias Humanas, não precisaríamos necessariamente nos desencantar.

Os rituais de uma interioridade gradativamente responsável e comprometida plausibilizam um potente e criativo eterno retorno.

“Livros”?

A História ficará escrita “atrás” de nós (é recomendável aqui a leitura de “Futuro Passado”, de Reinhart Koselleck!), caso peguemos OU NÃO em lápis, papeis, teclas, lãs linhas e agulhas...

Quem a lerá?

Que sábios (re)“encantamentos” deixaremos de herança?...

ILUSTRAÇÃO : ARTHUR BARRIO, “LIVRO DE CARNE” - 1977

3 comentários:

Ruth Mezeck disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
mezeck7@gmail.com disse...

Um escandalo de bom o teu blog
ja esta nos meus favoritos
parabens cristina
je revien -comcalma para ler esssas preciosidades todas.
beijos. Valeu

Anônimo disse...

Um escandalo de bom o teu blog
ja esta nos meus favoritos
parabens cristina
je revien -comcalma para ler esssas preciosidades todas.
beijos. Valeu

http://artescenicas.blogspot.com
Ruth Mezec k
Tô há um tempão aqui e esse blog recusa po meu comentario uma hota vai....