quinta-feira, 5 de agosto de 2010

CAMPANHA PELO APEITAMENTO PATERNO - Sempre é bom lembrar...


OBS.: ARTIGO PUBLICADO também NO LIVRO “CALEIDOSCÓPIO 2004”,

Editora Olho D´Água – dez.04

Pág. 91 – ISBN 85-7642-002-3


“-PELO APEITAMENTO PATERNO !”...

A CAMPANHA QUE URGE.


(Um antigo, mas ainda oportuno, texto agora atualizado e revisto)

O aleitamento materno tem - feliz, legítima, e merecidamente - sido (re)valorizado nos últimos anos.

Mas nossas crianças pós - modernas, que continuam sendo fruto de uma mãe e de um pai,não querem só comida: querem sabores, odores, toques, intuições, inspirações, insights, conexões; e querem tudo isso múltiplo, multifacetado, porque já nascem absorvendo - cada vez mais rapidamente - a idéia de que a oferta plural de informações deveria oferecer uma melhor qualidade de cardápios de escolhas vitais; de escolhas compartilháveis, fraternas, solidárias, e democráticas para a construção de alguma coisa que mereça o nome de “ futuro”, que possam e consigam, aliás, chamar de “seu”.

Homens não têm leite, mas têm peito.

Peito ora heróico, ora covarde, ora pau-prá-toda-obra, ora omisso, ora vanguardista, ora conservador, ora quente e fofo, ora duro e fugidio, ora justo, hora abusador, ora forte, ora frágil, ora exultante, ora desiludido, ora heterossexual, ora homossexual, ora bi, ora trans, ora pan, (e daí?) , ora sábio, ora não, ora circunstancialmente vazio.

Humano, sempre.

E o principal : com “cara” própria; a tal da IDENTIDADE...

O acolhimento do leite materno poderá estar “colorido” por um leque infinito de sabores, que varie do mais amargo ao mais sufocantemente adocicado; mas um ponto tangencial a todos estes sabores estará sempre presente lá: algo que mereça o (circunstancial) nome de “perfil FEMININO”; afinal, androginias têm limite.

O acolhimento do peito paterno poderá transitar por igualmente infinito (mesmo que de outro tipo) leque de odores; mas um certo ponto de odor estará sempre presente lá: algo que mereça o (circunstancial) nome de “perfil MASCULINO”; afinal, idem-idem...

A experiência como psicóloga em Escolas (Educação Convencional e Educação Especial) me confirmou a importância do significado de tudo isso, entre os presentes (e futuros) homens, e as presentes (e futuras) mulheres.

Após seis meses de trabalho nas Escolas passei a exigir que os pais (homens) também comparecessem às entrevistas de família.

Após vencer alguns momentos de previsível resistência, onde (por exemplo) alguns pais alegavam que “...não podiam freqüentar as atividades da Escola devido o horário de suas atividades profissionais”... (me obrigando a lembrar o óbvio, isto é, que as mães, hoje em dia, também têm atividade profissional, e nem por isso deixam de comparecer às escolas de seus filhos quando necessário), e “vencer”, evitando culpabilizá-los ou “demonizá-los” (preferindo acolhê-los fraternalmente), outras histórias emergiram, e passaram a somar, multiplicar, se repetir, começando a (re)desenhar (para aqueles pais e para mim) o conceito da paternagem.

A mais recorrente se caracterizava pelas afirmações: “...Não sei muito bem o que fazer para me relacionar com meus filhos; não sei muito bem o que fazer com esse tal papel de Pai, porque a relação do meu próprio pai comigo simplesmente não aconteceu, não existiu, não se concretizou; é quase como se eu fosse órfão de pai, órfão de pai vivo; não me lembro muito bem do que o meu pai falava comigo, o que ele fazia para me educar”...

Em segundo lugar, vinham as dificuldades referentes a diferentes tipos e graduações de constrangimentos, decorrentes de prováveis inabilidades das mães destas mesmas crianças, com alguma dificuldade em compartilhar o "ensaio e erro" de educar e guardar estes filhos com seus parceiros, estes (novos?) pais homens; esses ainda jovens pais que não querem repetir o que experimentaram (ou deixaram de experimentar) com seus próprios pais homens.

Percebi que minha preocupação em dar espaço e escuta (ao invés de somar queixas, acusações, culpabilidade e demonizações) a estes seres nascidos com sexo masculino provocava uma resposta ainda mais eloqüente do que a que eu esperava.

Na Escola voltada para a Educação Especial esta resposta parecia mesmo “gritar”, já que freqüentemente estes pais homens, despreparados como os demais para a paternidade, mas “em dobro” para a paternidade de filhos especiais, eram culpabilizados pelo esfacelamento familiar, na medida em que - de fato - abandonavam (em pânico evidente) seus lares, pouco tempo após o nascimento de seus bebês especiais.

Este imenso contingente de homens, já carentes de relação satisfatória (e sinalizante de identidade) com seus próprios pais homens, foi inclusive, praticamente, proibido de “brincar de boneca” - isto é - de “brincar de pai”, por exemplo, na infância, além de todas as funestas consequências das histórias de "homens-não-choram", já tão (felizmente) cantadas em prosa e verso.

Com freqüência assustadora, suas companheiras continuam reafirmando sua suposta “incompetência” nas atividades cuidadoras, (re)desqualificando as (novas?) iniciativas masculinas, entre os homens nos quais elas são (que bom!) despertadas.

Em muitos lares “modernos” e “bem informados”, as mães são as primeiras a continuar se encarregando de desestimular seus filhos homens ao exercício de atividades colaborativas (guardar a própria roupa, arrumar a própria cama, ou lavar a louça, por exemplo) ou cuidadoras (zelar por um irmão menor, por exemplo); “isso é para as filhas mulheres”, supostamente...

Assim, “brincar de pai” (com bonecas, por exemplo), "de ajuda mútua" (de 'casinha', por exemplo), ou com o Belo (estudar balé, por exemplo), continuam no estágio “tabu” para os nossos meninos.

Na minha própria experiência (e para minha alegria), naquele momento, naquelas Escolas, este Projeto especialmente direcionado para estas questões, começou a amadurecer.

Trabalhar com as crianças passou a significar trabalhar questões convergentes: com os pais, mas também com as mães, pois estas parecem ainda habituadas com papéis viciante e improdutivamente vitimizados e acusadores; improdutivamente reprodutores de um olhar preconceituoso.

Decidi criar a CAMPANHA PELO APEITAMENTO PATERNO, buscando colaborar no deflagramento da possibilidade de (re)construção de pais afirmativos, criativos; pais homens mais conscientes de si, dos exercícios de SER e de SER PAI , e casais mais conscientes de que podem arriscar experimentar novas conjugalidades.

Claro que a possibilidade da iniciativa de campanhas como essa, especialmente as desenvolvidas por figuras masculinas sempre me deixa ainda mais feliz.

Felicidade que já nasceu, pois ricas iniciativas semelhantes têm aparecido, inclusive em solo brasileiro, como o movimento pelos Direitos à Paternidade do Dr. Marcus Renato de Carvalho no Rio de Janeiro, e outros trabalhos preocupados com as questões referentes à Identidade Masculina, como os do Dr. Luis Cuschnir em São Paulo, os das ONGs Noos e Promundo também no Rio de Janeiro,como a PAPAI, em Pernambuco, e a PAI LEGAL BSB e SP , e nas iniciativas da Prof. Marlise Matos (UFMG) entre outras, que têm buscado intensa e permanente conexão com o ('novo'?) público masculino e entre si.

Tão afirmativo e criativo quanto isso, me parece a qualidade da performance destes profissionais brasileiros, que - ao contrário de seus colegas britânicos (também organizados ao redor das mesmas causas) - não sentiram a necessidade de se vestir de Batman ou Robin, (como fizeram os ingleses), arriscando alardear ainda mais um provável processo de suposta infantilização desta geração de homens, ao divulgar suas (justíssimas) campanhas pela guarda compartilhada dos filhos de casais separados, ou simplesmente por uma paternidade mais eloqüente (ou afirmativa).

Se urge que os seres nascidos com sexo masculino reflitam suas próprias questões, urge também que os seres nascidos com sexo feminino sejam (ainda!) estimulados a ouvir (ainda!) mais e a acusar menos, dando tempo e espaço para que as reflexões masculinas (supostamente tão almejadas pelo contingente feminino) se sintam de fato à vontade para emergir e agir,o que permitirá amadurecer suas identidade e potência.

Patriarcado e patriarcalismo não são fenômenos necessariamente gerados e alimentados por seres nascidos com sexo masculino: esta é outra reflexão compartilhável, fraterna, solidária e democrática que desenvolvi melhor em minha pesquisa “Homem ainda não existe” (sobre a construção do ator social masculino pós moderno) que – aliás - está “virando” livro.

Ilustração: foto do início do século XX, para quem "um pingo é i maioúsculo"...

4 comentários:

Calí das Mercês disse...

Adorei, quero estudar mais estes assuntos. Nossa, bom demais!
Delícia voltar aqui e ver este assunto, esta vontade, estas campanhas...

=)
Saudades

Rita de Cássia disse...

ô meu anjo querido, mil desculpas por ter sumido, mas ando cheia de tantas coisas p fazer...
mas ñ esqueço de vc ñ. sempre q posso , passo por aqui.
amei esse post, é algo interessante.
adoro te ler moça, vc é contagiante com suas palavras entusiastas!!
bjos afetuosos,
Rita de Cássia

Dona Sra. Urtigão disse...

Olá!
Voce apresenta bem, claro e evidente, a problemática das relações familiares e de construção (desconstrução, reconstrução ) da pessoa. Feito o diagnóstico, me vejo diante de uma vazio (falta de esperança): há uma proposta de reconstrução, transformação, no entanto o que não vejo é intenção/ação para mudanças, a partir do sujeito encontrado no objeto deste estudo.
Alguma mudança, que aparentemente ocorre e quase nos conforta, é mudança em superfície, para atender ao politicamente correto, mas não resiste a uma olhadela de perto. Aí, onde não somos normais, o pai que balança o berço, que troca a fralda, intimida com palavras e ações seus filhos/discípulos. A feminista mãe radicaliza na desatenção aos filhos, ou assume uma postura hipócrita, com grave ruptura entre o discurso e a prática.
Mas quem vos escreve é uma Urtigão sem fé nem esperança. Continue firme e com fé no seu trabalho, quem sabe trará resultados que facilitem minha conversão a qualquer crença que não crença na dúvida sistemática.

Edson Guimarães Silva disse...

Uma colega de trabalho certa vez me disse que eu era um "homem com útero", procurando deixar claro que não era por mal, que não me via afeminado e sim másculo, mas com a sensibilidade e amor naturais a uma mulher. Senti-me lisonjeado porque quem falou era mulher sincera e desinteressada. Fiquei feliz com esta descrição, mas confeço a você que ser homem não é nada fácil, principalmente, ser um homem sensível. Muitas mulheres não estão preparadas para este "novo homem", nos cobram esta mudança, mas também nos cobram sermos machos e machistas. Demonstrar sensibilidade é tido como sinal de fraqueza. Sempre participei da vida escolar dos meus filhos, levei-os a parquinhos, brinquei de tantas brincadeiras, fui tratorzinho, cavalinho... Mas minha ex-esposa me ofendeu tanto na justiça, que hoje me vejo constrangido, inibido e muitas vezes não consigo ser o paizão que tentei ser para os meus filho, com a minha princesa Rafaela....