sábado, 5 de julho de 2008

MASCULINIDADES HOJE ...


...PORQUE ESSE DEBATE ATINGE A TODOS :

As recentes e estarrecedoras estatísticas que apoiam
os dados abaixo deveriam ao menos nos assombrar; e assombrar com requinte o contingente masculino:

A -
o assassinato em massa de um contingente
prioritariamente de meninos e de jovens rapazes (tanto nas guerras “oficiais” quanto nas “oficiosas”, mesmo depois do maciço ingresso de mulheres tanto nas forças armadas de todo o mundo quanto - por exemplo - no tráfico);

B -
o alto índice de suicídios entre seres nascidos
com sexo masculino, superior ao equivalente feminino;

C -
o número sempre superior de acidentados no
trânsito com conseqüentes (e inúmeras) mortes, paraplegias e tetraplegias) entre seres nascidos com sexo masculino, quando comparado ao equivalente feminino;

D -
a violência urbana (e outros inúmeros casos de
mortes, paraplegias ou tetraplegias igualmente conseqüentes) incidindo com peso igualmente superior sobre o contingente masculino;

E - presídios com número superior de internos nascidos com sexo masculino, se comparado aos presídios femininos;

F - situação idêntica nos hospitais, inclusive especificamente psiquiátricos, enquanto a sabedoria popular afirma que “homem só procura médico em situação limite”, fugindo sistematicamente de movimentos preventivos;

G - viúvos que - diferentemente das viúvas - morrem, quando não conseguem uma nova associação de casamento (movimento que costuma ser dificultado por quadros de profunda depressão);

H - o recrutamento (sob coerção e violência) em massa de crianças, especialmente de meninos, para centenas de guerrilhas e semelhantes em todo o mundo. Além de assombrar, poderiam fortalecer a hipótese da exacerbação do filicídio, mas - em primeiro lugar - exibir que fantasmas assustadores focam e rondam esse contingente masculino mundial.

O senso comum se habituou a alardear a SUPERIORIDADE MASCULINA nas QUESTÕES DECISÓRIAS ao longo da história do planeta, associando fenômenos como a misoginia, o patriarcalismo, e o patrimonialismo (e suas conseqüências), como provas desse (indiscutível?) PODER.

Mas que PODER AUTOFÁGICO é esse que essas estatísticas
exibem? PARA QUE “TRIUNFO” serve, afinal, ao exibir seu implacável teor de SOFRIMENTO e LETALIDADE?

O ser nascido em corpo dito “de homem” parece lutar –
já – com sua própria tendência (autofágica) de silenciar; a maioria dos homens, inclusive os bem informados, admite sua dificuldade de falar de si, de arriscar mergulhos mais profundos em temas ou situações que envolvam intimidade.

Mães também educam, mas seu limite começa na possibilidade de ensinar aos SEUS MENINOS, O QUE É UM HOMEM, o que isso é, e o que pode significar.

A sociedade se habituou a “aceitar como natural” os pais (de sexo masculino) ausentes; ausentes desde a aparente impossibilidade de ministrar essa lição única e intransferível (compulsória?) aos novos seres que vão nascendo com sexo masculino, até quando se caracterizam casos de negligência mais graves, que beiram ou assumem caráter criminal.

Sociedade igualmente negligente e filicida,
irresponsável diante de todos os seus descendentes, e curiosamente suicida, pois a manutenção desse fenômeno “assassina” a todos, metaforicamente ou não.

Minha experiência na lida específica com Identidade de Gênero vem me convencendo que há temas preciosos para homens, mulheres e crianças: divisão injusta do trabalho doméstico; bulling de gênero nas Escolas; relações hierárquicas conflituosas intergêneros em ambiente de trabalho; assédios; abusos; violências doméstica, urbana ou bélica em geral; seqüelas da ausência inesperada de apoio familiar da figura masculina e desamparo social; a necessidade de renovar o debate sobre a administração da vida pública (estudo, trabalho), conjugada à vida íntima (lar, família, responsabilidades domésticas, etc.), já que “o mundo mudou”, mas certos hábitos sociais ainda não o acompanharam.

Profissionais como eu, interessados e
especializados no que diz respeito à identidade masculina, masculinidades, atuação para debate e renovação social não faltam.

Reivindicações e concretas propostas femininas não faltam.

Falta - SIM - vontade política (e, atenção, não me refiro
a cargos públicos!) dos mantenedores de um
patriarcalismo e de um patrimonialismo sem dúvida reais; embora não por mera responsabilidade de homens; ESSA responsabilização é complexa.

Segundo essas mulheres, os temas acima só podem ser
tocados em profundidade, quando seus pais, irmãos, colegas de trabalho, companheiros, e especialmente filhos homens (o universo masculino “pronto” e/ou “em construção” que as cerca) são também trabalhados; QUANDO? ONDE?

Também (até ele!) o senso comum já compartilha, felizmente, a
compreensão
de que sexo e gênero são fenômenos
diferentes.

Feminidades e feminilidades são incansavelmente debatidas há muito tempo a partir da FALA das mulheres, e a respeitabilidade às demais orientações sexuais é igualmente FALADA.
Essas FALAS ganharam cada vez mais poder, e chegaram
mesmo - graças a isso - a se organizar; até no tão conservador Afeganistão A MULHER (logo, as mulheres) - por exemplo - é acolhida pela ONG Rawa, quanto SUAS específicas questões.

O GLBTs é igualmente acolhido (logo, os gays, as lésbicas, os bi e os transexuais) cada vez melhor, em todo o planeta, sobre SUAS específicas questões.

Onde ecoa a FALA das Masculinidades? Se essa FALA ainda não ecoa, não se transforma (não transforma os homens) num coletivo: o HOMEM.
É o
coletivo que caracteriza o ator social.

Um coletivo se organizaria com maior poder e
facilidade.

Um homem (independente de sua orientação sexual) não tem sequer uma ONG que o acolha a partir de SUAS específicas questões, decorrentes de ter nascido um ser do sexo masculino; talvez PORQUE AINDA NÃO AS DEBATA; ele FALA pouco, afinal...
No máximo encontra ONGs que tratem da violência masculina ou da paternidade, ou serviços que atendam problemas sexuais masculinos: o que - sem dúvida - é um avanço que alimenta a esperança de quem trabalha com o tema.

Mas HOMEM como sinônimo de VIOLENTO, de PAI, de
VIRIL ou IMPOTENTE é MUITO POUCO: é pobre como definição de UMA IDENTIDADE.

Afinal, o que são e o que querem as MASCULINIDADES?

É nesse sentido que arrisco afirmar (brincando com a
famosa - e correta no contexto de origem - afirmação psicanalítico/antropológica de Lacan, “- Mulher não existe”), que, DO PONTO DE VISTA DA CONSTRUÇÃO DO QUE CHAMAMOS ATOR SOCIAL, DO PONTO DE VISTA DE EXISTÊNCIA COMO UM COLETIVO plenamente RECONHECIDO PELA SOCIEDADE: “MULHER” existe, “GLBT” existe, mas “HOMEM (AINDA) NÃO EXISTE”.

Existirá apenas depois que - consciente, autônoma,
responsável e reflexivamente - transformar a si mesmo em Questão; em Questão sociológica.

ILUSTRAÇÃO : EGON LEO ADOLF SCHIELE - Fighter - 1913

5 comentários:

Sonia Napole disse...

Esta é a Cristina que eu conheço
Mulher inteligente, lutadora, pesquisadora,contestadora e.... que realiza.
Sucesso
beijos

Danillo disse...

Trocando DEUS pelo HOMEM, em Perdoando Deus, da Clarice Lispector, ficaria:
"Enquanto eu inventar o HOMEM, ELE não existe".
Perfeito o estudo!
Fico até receoso pelos meus pêlos no peito.
Beijos,
Danillo

Anônimo disse...

Cristina: Você me faz pensar em profundidade na minha vida com dois filhos: Um marido e outro autista. Não sei o que dizer. Tenho que mastigar bastante o que você diz... E me ver de forma diferente do que vejo hoje.
Beijos e quero mais. Muito obrigada.
Fabyola Sendinno

Samuel Giacomelli disse...

Nossa!
Em breve voltarei para reler esse texto. E se puder me indicar mais alguma leitura sobre o tema me interesso muito!
Inclusive, obrigado, minha querida, por ter me solucionado um problema. Seu texto me ajudou a definir a cena que terei de entregar hoje a tarde.
Passarei por acá mais veses. Sempre me avise de novas atualizações.
Grande Beijo
Samuca

Guilherme disse...

Ótimo, Cris!

Minha impressão é a de que, quando se tem uma posição de poder, não se tem (ou não se percebe) a necessidade de se buscar/definir uma identidade. Não entendo bulhufas do importante tema a que você se dedica, mas faço um paralelo que não me parece absurdo. Nossa sociedade tem um óbvio viés patriarcal que dá aos homens poder (mesmo que autofágico, aliás, como muitos poderes são). Esse poder pode estar diretamente relacionado à ausência de uma identidade de forma homóloga ao que eu vejo, por exemplo, no Ro de Janeiro em comparação com outros estados do país. Minas, Rio Grande, Pernambuco, todos têm uma forte identidade local. A identidade do Rio se confunde com a identidade do Brasil, não lhe é específica, seus símbolos (Cristo, Pão de Açúcar, samba, Flamengo, mulatas) são representativos do Brasil inteiro aos olhos do mundo. As pessoas mostram bandeiras de seus estados, que lembram revoluções e revoltas, enquanto a do Rio os próprios cariocas desconhecem, nada significa. O Rio era a capital, foi onde de concentrou a força que obrigou as regiões a se manterem como parte do território nacional, historicamente concentrou poder. Se, hoje, o dinheiro redireciona quase todo esse poder para SP, aparentemente essas identidades já estão estabelecidas. Minha comparação é meio heterodoxa, mas suspeito que dê para pensar dessa forma na ausência de uma identidade masculina.

Beijão e parabéns