terça-feira, 12 de agosto de 2008

IDENTIFICANDO O DANO PSICOLÓGICO POR EROTIZAÇÃO PRECOCE


(Baseado na primeira versão escrita em 1998, para o número 0 do Jornal do Movimento Contra a Erotização Precoce/Angels, e revista agora).

Por mais “circunspecto” que seja o tema que - por algum motivo - eu precise estudar/abordar, não deixo de refletir sobre ele, de investigá-lo, de pesquisá-lo também através do instrumento HUMOR.

Esse caminho - nada ortodoxo - invariavelmente me reserva surpresas, excelentes informações, ou subversivas descobertas das quais não poderia abrir mão.

Assim, enquanto preparava o texto para uma palestra sobre ética (para um grupo de estudos que se reuniria no Restaurante Mange (Shopping da Gávea /RJ), descubro e reservo, perto da pilha de livros, uma “tira” de humor do poético cartunista Laerte, publicada na Folha de São Paulo.

Nela, o Diabo procura Deus, pedindo ajuda para colar a tampa de seu relógio, que teria se soltado; Deus, que aparece lendo Filosofia, o atende, mas os dois (trapalhões?...) acabam colados um ao outro...

O Diabo comenta: -“Ih! O tempo parou!...”

Deus acrescenta: -“Ora! E eu lendo metafísica!...”

Também aqui seria impossível pensar no assunto excluindo as questões éticas, “diabos e deuses” colados/costurados, “tempos parados”, eternos retornos, e filosofias, às vezes imersas em certas per-versões pós-modernas, isto é, freqüentemente restritas a retórica...mas “não vividas”. Discursos e Ações per-vertidamente divorciados.


Creio que não precisamos lembrar que esse movimento - (Movimento Contra a Erotização Precoce) - não traria de volta a criança de outros e passados tempos, a quem os assuntos sexuais e/ou a SEXUALIDADE em si seriam negados: -“Crianças são tão inocentes, que nem têm isso, nem sentem essas coisas!” ou sumariamente proibidos: -“Crianças são inocentes; não devem, não podem aprender essas coisas!”. A intenção dos responsáveis pelo Movimento não é essa.


Pelo contrário, reivindica o DIREITO DACRIANÇA a uma orientação adequada a cada etapa evolutiva de seu (singular, pessoal e intransferível) desenvolvimento, QUE tenha escuta e RESPEITE O OLHAR DELA SOBRE A SEXUALIDADE, CONDIZENTE À SUA FAIXA ETÁRIA. Tudo CONDICIONADO À SUA ESPONTÂNEA SOLICITAÇÃO, claro.


Claro que há filigranas de definição de “erotização”, ou mesmo de “precoce”, que podem vir a “evoluir” ou a se transformar (talvez!) com o tempo (hipótese levantada, por exemplo, pela psicanalista Elizabeth Roudinescu). Mesmo assim, poucas dúvidas pesariam sobre a opção de preferir o Olhar da Criança, pedido por ela, apropriado aos limites de seu corpo, de seu desenvolvimento afetivo e intelectual, a quaisquer imposições/invasões violentadoras, fruto do Olhar de quaisquer adultos.


A psicanalista Susan Isaacs um dia perguntou:

...“O quê pode ser mais nocivo para a bondade e a felicidade que a circunstância de ser induzido a pensar que a própria existência teve suas raízes em algum mistério vergonhoso?”... (Tradução minha; “Anos de Infância”, Editiones Hormé; pág. 129).


“Vergonhoso”, pode ser inclusive: - tanto o que seja proibido e transformado em tabu, - quanto o que seja constrangedoramente (ou violentamente) imposto.


Exatamente por não ser vergonhoso, e sim sublime como a própria Vida, (porém tão complexo quanto à própria Vida), o processo de inserção no universo da sexualidade ou erotização merece cuidados.

Os mesmos cuidados que merece o processo de inserção no universo genérico da autonomia, no universo sagrado da singularidade.

Susan Isaacs, neste mesmo livro, lembra que as inevitáveis primeiras perguntas sobre a sexualidade, atravessam a sexualidade, para perguntar - na verdade - sobre a existência.

São perguntas existenciais, que evidenciam - em primeiro lugar - a inserção de mais um ser vivo na metafísica; aquele pequeno indivíduo quer, na verdade, exibir sua recén-adquirida “carteirinha de ser – humano”...


Segundo Susan Isaacs, é como se a criança dissesse:


“-Ei! Preciso aprender sobre essas coisas misteriosas que ando intuindo, porque já percebi que não sou uma pedra, não sou uma florzinha, nem um animal qualquer; quero que vocês saibam que percebi que somos um grupo, que eu pertenço a este grupo, e que isso serve para alguma coisa!...”.

É o recurso que a criança tem de entrar para o “clube” dos seres que se preocupam (e como seria possível estar vivo e não se preocupar?...) com as mais estimulantes perguntas do universo:

“De onde viemos? Para quê estamos aqui? Para onde vamos? Por que o Ente e não antes o Nada?...”


O SENTIDO? Onde está o SENTIDO?”, é outra (nobre?) pergunta freqüente na produção poética (inclusive a poética e humorística) humana.

Sem direito ao menos à autonomia do perguntar:

-“Onde está o sentido/significado de existir?”, um ser (que mereça o a categoria de humano) talvez não suportasse viver!


Não é sequer necessário ser alfabetizado para sonhar.

Mas ser autônomo e singular é fundamental para sonhar, para SER.

LOGO o processo dessa construção não pode ser impedido, “atropelado”, INVADIDO.

O sonho, comum a qualquer ser humano, “prova” isso; e é no sonho, que a sofisticação do POÉTICO se torna plausível. Prova que a “carteirinha” que podemos dizer que a criança reivindica ao perguntar: “como ele nasceu?” ou “de onde vêm os bebês?” existe: a singular subjetividade. E deveria ter um valor.


Valor, e não preço.


Assim: - fazer de conta que sexo não existe, - ou falar de sexo como se fosse apenas uma asséptica experiência científica de
laboratório, - ou demonstrar (mesmo que com um único músculo facial) que aquilo é alguma
coisa perigosa ou maldosa, são atitudes que vão roubar tanto tijolos preciosos da construção das noções de valores existenciais, de valores p(r)ó-éticos da criança, noções de generosidade, quanto preciosos tijolos da construção da sua sexualidade...


Além disso, violentar a espontaneidade, impondo informações sobre a sexualidade, impô-las com o olhar malicioso do adulto, se equipara à mais reles violência sexual, onde um ser exerce o seu (suposto) poder, vertical e arbitrariamente, sobre o Outro (quer falemos especificamente de episódios de pedofilia ou não).


Se o Outro é de fato uma criança, eqüivale especialmente a um assassinato, já que a singularidade original que ali se desenvolveria antes do crime não mais se manifestará: está morta, mesmo dentro de um corpo que poderá, talvez, continuar vivo. Não é hora de perdermos tempo com eufemismos.


A espontânea construção da sexualidade e ou da singularidade do Outro, É O OUTRO, faz parte dele, do corpo existencial dele.

No primeiro capítulo de “Princípio Vida”, Hans Jonas comenta, com outra intenção teórica, mas ainda oportunamente para esta nossa reflexão:

...”No corpo está amarrado o nó do Ser, que o dualismo rompe, mas não desata”...(pág. 34).

Invadi-la com palavras, imagens, ou olhares maliciosos devia ser considerado tão CRIMINOSO quanto invadir com seu corpo adulto ego-centrado (egoísta?) tiranicamente autoritário o corpo até então livre do Outro. Possibilidades de patologias individuais é tema que merece debate específico; lembremos apenas que são episódios sistematicamente associados a identificação de abuso na própria infância do novo abusador, a se perpetuar.


Se o processo de erotização de uma criança é invadido pela intervenção maliciosa de (um) adulto(s), e o sentido existencial de seus próprios questionamentos é ignorado, a sexualidade da criança, (perdendo assim seu SENTIDO), é “coisificada”.

A sexualidade dessa criança é desvinculada do ato de existir...


A sexualidade da criança deixa de significar uma possibilidade de fruição prezeirosa e compartilhável da existência, da Vida.

Se a sexualidade que a trouxe para a vida (ou para o existir) é “UMA COISA”, ela (a criança) também é “APENAS UMA COISA”...

Não é mais ALGUÉM; é ALGO.


Aquele ser humano, cuja existência plena iria desenvolver plausibilidades de se expressar, inclusive quanto a sua sexualidade, foi assassinado.


Indivíduos têm VALOR; coisas têm PREÇO.

Vivemos tentando fazer de conta, inclusive, que não enxergamos o gigantesco contingente de crianças cuja sexualidade/existência está sexualmente “vendida” nas ruas, ao nosso redor; ou o assunto deveria se restringir às crianças de classe média que têm “lar”, “família”, e “televisão”?...

SOMOS TODOS RESPONSÁVEIS; NOSSAS MÃOS ESTÃO SUJAS...

Coletividades estão igualmente sujeitas a patologias, o que também merece debate específico em outro momento.


Leandro Konder lembrou, um dia, numa crônica de jornal, que: ”HOJE EM DIA QUASE TODO MUNDO SABE O PREÇO DE QUASE TUDO, MAS QUASE NINGUÉM SABE O VALOR DE QUASE NADA”...

Por que será, heim?

A QUEM interessaria essa banal “COISIFICAÇÃO GENERALIZADA?”...


Textos ainda com “GRANDE IBOPE” sobre ética, utilizados (subversivamente?) em pleno 2001 (até quando?...), são os de Baruch Spinoza (1632 / 1677), onde consta, por
exemplo, que “a alma é o corpo visto através do pensamento”, ou que “a alma responde a tudo o que acontece no corpo, assim como o corpo há e sentir o efeito das paixões construtivas ou destrutivas que prosperam na alma”.

Não basta ao indivíduo ter CORPO / AFETOS / INTELECTO.

Mesmo que “TENHA” os três, ele só “EXISTE” se estes três elementos conseguirem EXERCITAR A BUSCA DA INTERAÇÃO EQUILÍBRADA ENTRE ELES.

Só ASSIM o indivíduo ganha a chance de MATAR A FOME DO SENTIDO, do significado de existir...


Nó funcional que dualidades não rompem...como lembrava Hans Jonas.


Lá pelo século XVIII a infância “FOI INVENTADA” (assim como a adolescência, lá pelo século XIX).

Até então não nos preocupávamos com o que caracterizava esses períodos evolutivos dos indivíduos, ou com os cuidados que os nossos descendentes mereciam em seu desenvolvimento.


NÃO; infelizmente não foram “estudiosos bonzinhos” que decretaram estas “INVENÇÕES”, e deflagraram os estudos (que ainda hoje evoluem) sobre nossas crianças e nossos adolescentes.

Na verdade foram movimentos da evolução do capitalismo, nesses momentos históricos, que precisaram de NOVOS PERFIS DE CONSUMIDORES...


Foi graças a essa demanda de Mercado que “inventamos” a infância e a adolescência.

Recente (e felizmente), o consumidor idoso também foi “DESCOBERTO”, e – assim - “INVENTADA” a “Terceira idade”, como falamos no texto postado anteriormente.

Que categoria de consumidor trará a próxima “INVENÇÃO MERCADOLÓGICA” - e aí sim - NOVAS consequências pedagógico-comportamentais-jurídicas?... Aguardemos!


SIM; diabos” e “deuses” nasceram colados/costurados/misturados...


As “invenções” vieram do trâmite mercadológico. Mas - uma vez inventadas - foram DE FATO desenvolvidas por estudiosos, que viram SENTIDO em investigar e pesquisar. sim - de fato – demos um passo à frente...


Escrevo (*) numa semana sincronicamente curiosa, ao longo da qual a imprensa alardeou a “nova programação infantil das Tevês”, assinalando “o quão educativas elas decidiram realmente se tornar a partir de 2001”...

NÃO; não me parece que “executivos bonzinhos” decretaram, arrependidos, o banimento das “danças- das- garrafas” infanto- juvenis de nossas telas.

Na verdade, inúmeros produtos educativos, que precisam de consumidores, foram criados. Por exemplo, na animadíssima e ágil, mas ainda incipiente WEB; inúmeros produtos (jogos, livros, discos, etc.) educativos estão mofando no comércio em função da eterna crise econômica (e já energética), ao mesmo tempo que as escolas particulares (devido às mesmas crises), sofrem com a evasão de seus consumidores... PERDÃO!... Alunos...


É a demanda do mercado sobre o consumidor em potencial: agora é a “criança circunspecta e futurista supostamente pronta a aprender com a tecnologia - (e a pagar por isso)” que exige a modificação do perfil de nossa programação infanto–juvenil na (ainda) poderosa mídia (que só sobrevive – aliás – a partir de seu diálogo com a igualmente poderosa voz dos consumidores).


SIM; provavelmente nossos descendentes vão “lucrar” em aspectos não – mercadológicos, e estudiosos DE FATO terão acesso à possibilidade de interferir, e DE FATO desenvolverão afirmativamente tudo isso; DE FATO criarão um processo de transformação na informação direcionada a nossas crianças e jovens.


SIM; o “milk-shake de diabos e deuses” é a “metafísica mais realista” que o adulto tende a desvendar, com o “tempo quebrado” - ou não - que lhe restar.


(*) Lembro que originalmente foi escrito em 1998.

ILUSTRAÇÃO: CILDO MEIRELES, “DESVIO PARA O VERMELHO” - detalhe -1967.

4 comentários:

Marcello disse...

Querida Cristina,

Adoraria poder utilizar este texto maravilhoso em minhas aulas na Faculdade UNISABER de Brasília-DF. Meu queridissimos alunos, egressos do curso de Pedagogia, precisam ler, discutir e refltir estas suas idéias sobre a questão da sexualidade infantil.

Obrigado!

Rosane Chon Chol disse...

já tinha lido, Cris - está muito bom, me fez lembrar muito de como meu desejo era BRINCAR
não quero dizer que crianças são tolas, não são não, são muito sensíveis à qualquer conteúdo sexual
eu, pessoalmente, me sentia muito incomodada pelo excesso de sexualização de meus colegas na
Escola Americana, onde fiz o primário
não gostava, tanto que fiz o exame de admissão para o Brasileiro de Almeida, onde fiquei até o 3 colegial
a cultura Norte Americana contribuiu muito para a anulação da infância( queimar etapas ) - e isto está sendo copiado pelo mundo afora
não quero colocar isso nos comentários, é só uma resposta pessoal sobre o que penso do assunto - bjssssssss

maria disse...

CHRISTINA,ME SINTO HONRADA POR FAZER PARTE DO SEU CICLO DE AMIGOS VIRTUAIS. GOSTEI MUITO DO SEU TEXTO.AO CONCLUIRR A LEITURA FIQUEI C MUITA VONTADE DE LER MAIS SOBRE ESSAS QUESTOES Q VC APONTA.
ABRAÇO!!!

Diego Viana disse...

Cristina, este é o primeiro texto que escolhi para ler com calma aqui. E foi uma bênção. A conquista da criança como mercado é um dos temas que mais me têm chamado a atenção, como coisa escandalosa e vergonhosa, prova de que a humanidade desceu a níveis insuspeitos de abjeção. Você tem toda razão quando diz que qualquer interferência da visão distorcida que os adultos têm da sexualidade é um atentado contra o desenvolvimento da criança. Me fez pensar muito em Wilhelm Reich, um autor que me impactou muito quando o li.
Um abraço!
Diego