quinta-feira, 3 de julho de 2008

TRABALHANDO IDENTIDADE NA CHAMADA "EDUCAÇÃO ESPECIAL"


“PROJETO MEU OLHAR”

Onde alunos (crianças, adolescentes, jovens e adultos), ditos “especiais”, mostraram sua visão do cotidiano, do mundo,da vida.


De 2001 a 2007, numa Escola carioca assim direcionada, desenvolvi atividades que culminaram nesse Projeto; esta experiência – pelas pesquisas que fiz até agora – se mantém inédita.

Não costumo alardear o que faço, mas seria "além do humano" resistir à tentação de informá-los, para que conheçam – em primeiro lugar - a realidade sobre o potencial deste contingente humano, foco ainda de freqüente discriminação, exclusão e preconceito, especialmente os mais velhos.

Eu e os alunos chegamos JUNTOS a esse Projeto.

Meu tema, como psicóloga, fora do consultório (nunca consegui me limitar a ele, daí a opção pela Pós em Sociologia) é, como se vê aqui, a IDENTIDADE.

Para deflagrá-lo, comecei experimentando técnicas dinâmicas (com exercícios corporais, colagens, esculturas, música, etc.) que visavam às questões de Identidade Corporal.

Em seguida, trabalhamos ora as questões de Gênero (que apareceram como tema intermediário necessário), ora as Profissionais, foco principal da demanda identificada pela Escola em 2001.

O trabalho foi crescendo, e comecei (a pedidos) a trabalhar, também, as famílias dos alunos.

Como a maioria de amigos e conhecidos sabe, o principal foco de minha rotina profissional é a Identidade Masculina, mas não foi só por isso que deflagrei lá, também, a partir daquele momento, a CAMPANHA PELO APEITAMENTO PATERNO.

Se a identidade masculina e a paternidade são temas complexos na sociedade como um todo, nas famílias onde nascem crianças com necessidades especiais a situação o é ainda mais.

Em novembro e dezembro de 2004 deflagrei novo desenvolvimento do Projeto inicial, que intitulei PROJETO MEU OLHAR, no qual pedi aos pais que trouxessem máquinas fotográficas para seus filhos trabalharem comigo.

Foram delimitados TEMAS.

Parte deles era desenvolvida comigo na própria Escola.

Parte dos temas era desenvolvida com os familiares, em casa.

Tudo convergia para que eles fossem estimulados a fotografar SUA (deles) VISÃO DO MUNDO, e a comentá-la.

A maioria já sabia usar a máquina fotográfica; os demais aprenderam; rapidamente, aliás.

As fotografias eram reveladas, e enviadas para a Escola; a maioria das famílias enviava os negativos e os comentários do aluno durante o processo das fotografias, como pedi a elas.

O resultado seduziu a todos que vêem, pois os murais continuam comigo - espero -um dia - transformá-lo em livro ou semelhante.

Era feito um mural (muito modesto) com as fotografias de cada aluno, ilustrado com o texto dos comentários feitos, parte na Escola (comigo e os colegas), parte (quando era o caso) com os familiares. Os comentários com forte apelo poético abundaram.

Num dia previamente marcado, o aluno e sua família apresentavam seu mural para os colegas, falando tudo o que consideravam importante sobre o processo, e tudo o mais que ficou ali registrado; em seguida, os colegas "sabatinavam" o aluno e sua família sobre o que era apresentado ali “ao vivo”.

O sucesso desse procedimento começou a levar algumas famílias a ir assistir a apresentação de outros alunos (que não seus próprios filhos), e os benefícios previamente aguardados do Projeto se multiplicaram em novos e inesperados fenômenos de evolução comportamental de todos os envolvidos.

Em 2005, entrou em cartaz o excelente e oportuno filme "Do luto à Luta".

Nos debates que o acompanharam, surgiu uma questão recorrente:

-"Finalmente o Mundo está olhando para estas pessoas ditas ‘especiais’; mas ainda não sabemos como essas pessoas ditas ‘especiais’ olham para o Mundo dito ‘normal’"...

Daí a necessidade de que informe, a quem não sabe, que este registro começou a ser feito, sim!....

E mais: que seu olhar nada “revela” que desmereça total e imediata inclusão...

Como eu gostaria de tornar públicas as (sempre surpreendentes) fotografias elaboradas por nossos (aproximadamente) 90 alunos (e seus não menos surpreendentes comentários), entre crianças, adolescentes e adultos, para que se comece a tornar - finalmente – público ..."o olhar deles sobre o Mundo"..., como foi detectado na reflexão deflagrada pelo filme citado, SEM ESQUECER QUE NESTE CONTINGENTE A IDENTIDADE INDIVIDUAL / SINGULAR TAMBÉM ESTÁ OBVIAMENTE PRESENTE!...

Este Projeto foi apresentado, a convite da FIOCRUZ, em seu Museu da Vida, na tarde do dia 19 de maio de 2006, no evento “Mostra Curiosidade e Memória”, e este texto encaminhado a uma revista européia sobre Educação, que o publicou; ver:

http://www.apagina.pt/arquivo/Artigo.asp?ID=4926

Aviso que adoraria ser convidada a deflagrar uma ação multiplicadora do Projeto em outros locais interessados!

RESUMO AGORA, para chamar a atenção para o potencial desse contingente AINDA ignorado por muita gente, TODAS AS ATIVIDADES DEFLAGRADAS EM 2001, E DESENVOLVIDAS ATÉ JANEIRO de 2007:

1.) Trabalho de pesquisa dos alunos (com a colaboração das famílias) sobre o significado do próprio nome.


2.) Trabalho de Identidade Corporal (silhueta desenhada do próprio corpo numa folha em tamanho real; identificação nesta silhueta - por palavras, desenhos e colagens - do universo do aluno, debate sobre a visão do aluno sobre seu próprio corpo e seu universo familiar e social, a partir de aulas individuais de cada aluno a seus colegas, após a silhueta de cada um ser totalmente preenchida com os dados gráficos solicitados).

3.) Trabalho de Identidade Individual / Grupal / Social, através do desenvolvimento de esculturas, sobre temas previamente propostos, em massa de modelar, individuais, em subgrupos, e coletivas, apresentadas em turma, e debatidas, depois de prontas.

4.) Trabalho de Identidade Profissional, através do desenvolvimento de trabalho de

mímica, referente a atividades domésticas, urbanas, e profissionais em potencial propriamente ditas; o resultado desta última fase foi fotografado por mim, e as falas dos alunos sobre este registro fotográfico foram redigidas, e estão guardadas, juntamente com as posteriores fotos deles.

5.) Trabalho de Identidades Estética e Sentimental, através do desenvolvimento de

pesquisa dos alunos sobre suas músicas favoritas; discos são levados à Escola, ouvidos, músicas e letras debatidas; cada aluno elege “a sua música pessoal”, e dá uma aula para os colegas sobre os porquês de sua eleição, e sobre a música em si; são feitos “cadernos de músicas” por vários alunos.

6.) Trabalho de Identidades Subjetiva e Profissional, através de Dinâmicas de Grupo sobre “o sonho que se sonha dormindo” e o “Sonho que a gente quer realizar no futuro da vida acordada”.

7.) Trabalho sobre Identidades de Gênero e Profissional, através do desenvolvimento de fantoches (cada aluno cria e confecciona, com orientação da Psicóloga, dois fantoches de mão; um masculino, e outro feminino); eles são apresentados através de uma encenação que os utiliza (cada aluno cria o texto e a voz de suas personagens), num “palco” improvisado nas salas; o que cada aluno apresenta é desenvolvido depois em Dinâmicas de Grupo direcionadas aos comportamentos ditos Femininos e ditos Masculinos, sobre o valor da Gentileza, sobre o verdadeiro tamanho da importância de cada experiência vital, etc.

8.) Revisão da anamnese familiar dos alunos antigos, e anamnese dos novos

alunos gradualmente matriculados.


9.) Atendimento regular às famílias, mediante solicitação destas, ou por solicitação da própria Psicóloga, dos professores e / ou direção.


10.) Campanha Pelo Apeitamento Paterno (visando os Pais Homens, e –
especialmente – os pais homens dos alunos homens, deflagrada

por um texto escrito pela Psicóloga, e enviado pela Escola

às famílias; este texto vem a ser publicado no “site”

www.aleitamento.com do pediatra Marcus Renato, e

no livro de artigos “Caleidoscópio”, da Editora Olho D’Água,

ligada à PUC SP, em 2004.


11.) São oferecidos dois horários (um para as famílias do turno da manhã, e

outro para as do turno da tarde) para Dinâmicas de Grupo

sobre os temas mais solicitados pelas próprias famílias,

para esclarecimentos e debates.


12.) Debate constante com os Professores, que frequentemente

solicitam orientação sobre temas específicos (comportamentos

em salas de aula, manifestações da sexualidade, outras

necessidades dos alunos, etc.); daí muitas reuniões da psicóloga

com as famílias serem acompanhadas também pelos professores.


13.)
Finalmente, lançamento do Projeto Meu Olhar.


ILUSTRAÇÃO : LEONILSON - Voilà mon coeur - 1988

2 comentários:

Arte em Movimento disse...

À Christina Montenegro,
É bom saber que há profissionais ainda interessados em desenvolver acima de tudo cidadania (em um momento onde se fala tanto nela e pouco se faz). Parabéns pela ousadia do novo e da pluralidade....

Belchior Carrilho dos Santos (Acadêmico de Artes Cênicas da UFAC- Universadade Federal do Acre). Participante da oficina oferecida pelo SESC/AC e ex-estagiário desta instituição naquele momento.
Abraços,
Muitos e muitos sucessos...

mschonwandt disse...

Chris, maravilhoso trabalho.Qualquer comentário é pouco diante da envergadura dos seus projetos. Parabéns! Esse blog vai ser muito importante para todos nós, seus admiradores, e para tantas outras pessoas que vão passar por aqui. Sucesso.